Karl Shapiro – Inverno na Califórnia

É inverno na Califórnia, e no exterior
É como o interior de uma floricultura:
Uma fresca e úmida cultura
De camélias rosas delimita a vertente;
E que raras rosas para um banquete ou um amor,
Tão numerosas que semelham uma enchente!

Uma fileira de lesmas cruza o verde gramado
Das roseiras ao canteiro de heras;
Um composto arsênico é distribuído para elas;
O jardineiro varrerá as cascas
E deixará em um canto do adro
O montinho de valvas vazias, como cabeças.

Antes do meio-dia a névoa é dissipada pelo sol
E o céu mais imenso do mundo uma página inaugura
Para o exercício de uma era futura;
Agora, os aviões a jato desenham parábolas, linhas,
E x’s, que o vento, antes que se desfaçam,
Lentamente elimina e e arrasta e desalinha.

É inverno no vale da vinha.
Insinuam as videiras em estacas crucificadas
Cemitérios de guerra, mas a fruta é prensada,
Os tonéis de carvalho no galpão transbordam,
E nos acessos, carros-tanques cheios de Moscatel de Alexandria,
Pelo qual os sucos de bilhões de uvas sangram.

E os esquiadores da linha de neve voltando para suas casas
Descem entre fazendas de olivais, pomares de Sete Copas.
Figueira e palmeira – tudo que conforta
A imaginação da época de inverno.
Pensaríamos em Roma se as paredes fossem mais anosas:
Pensaríamos na Espanha se o terreno fosse mais pedregoso.

Mas nesta terra crescem criaturas vivas ancestrais,
Árvores que eram jovens quando a terra era pelos faraós governada,
Árvores cujas novas folhas só agora estão sendo desfraldadas.
Bonitas não são; elas oprimem o coração
Com gigantismo e com asas imortais;
E ainda assim se sente a suntuosidade deste chão.

Está chovendo na Califórnia, uma chuva pura
Limpando as pesadas laranjas nos laranjais,
Enchendo os quintais até que escoem os quintais,
Reluzindo as azeitonas, ladrilhando com brilhante ladrilho,
Polindo as folhas mais verdes da camélia escura,
Inundando os vales o dia inteiro como o Nilo.

Trad.: Nelson Santander

California Winter

It is winter in California, and outside
Is like the interior of a florist shop:
A chilled and moisture-laden crop
Of pink camellias lines the path; and what
Rare roses for a banquet or a bride,
So multitudinous that they seem a glut!

A line of snails crosses the golf-green lawn
From the rosebushes to the ivy bed;
An arsenic compound is distributed
For them. The gardener will rake up the shells
And leave in a corner of the patio
The little mound of empty shells, like skulls.

By noon the fog is burnt off by the sun
And the world’s immensest sky opens a page
For the exercise of a future age;
Now jet planes draw straight lines, parabolas,
And x’s, which the wind, before they’re done,
Erases leisurely or pulls to fuzz.

It is winter in the valley of the vine.
The vineyards crucified on stakes suggest
War cemeteries, but the fruit is pressed,
The redwood vats are brimming in the shed,
And on the sidings stand tank cars of wine,
For which bright juice a billion grapes have bled.

And skiers from the snow line driving home
Descend through almond orchards, olive farms.
Fig tree and palm tree – everything that warms
The imagination of the wintertime.
If the walls were older one would think of Rome:
If the land were stonier one would think of Spain.

But this land grows the oldest living things,
Trees that were young when Pharoahs ruled the world,
Trees whose new leaves are only just unfurled.
Beautiful they are not; they oppress the heart
With gigantism and with immortal wings;
And yet one feels the sumptuousness of this dirt.

It is raining in California, a straight rain
Cleaning the heavy oranges on the bough,
Filling the gardens till the gardens flow,
Shining the olives, tiling the gleaming tile,
Waxing the dark camellia leaves more green,
Flooding the daylong valleys like the Nile.

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