Categoria: Poema
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos…
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James Crews – Kintsugi

Qualquer um que ama outra pessoajá tem o coração partido.É a lei: se quer que aquela luzinunde seu corpo, você deveexpor as cicatrizes através das quaisela jorra, pois elas são a fontede sua beleza e de sua força.Pense nos japoneses que preenchemas fissuras de uma vasilha de cerâmicacom ouro puro, não apenas exibindoestas chamadas falhas,…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta…
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Joyce Sutphen – Vivendo no corpo

Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecerneste planeta e você só recebe um.E não importa qual você receba, ele nãoserá satisfatório. Não será bonitoo suficiente, não será rápido o suficiente, não aguentará dias seguidos, maso arrastará para um pântano sonolento eexigirá maçãs e café e bolo de chocolate. Corpo é uma coisa…
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Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para…
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Malena Mörling – Do trem

Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde…
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Joaquín Benito de Lucas – Elegia

Quando agora retornoà minha cidade, não posso contera emoção de saber que não sou esperado.Não me espera meu pai, que desceu rio abaixomuito lentamente entre os juncos, sob pontes enevoadas. Não me espera meu irmão,que me esperava sempre ao lado de um balcãoqualquer, em uma rua qualquerbrindando ao meu últimolivro ou por sua desgraçaou por…
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James Tate – Uma batida na porta

Eles me perguntam se eu já penseisobre o fim do mundo,e eu respondo, “Entrem, entrem,deixe-me dar-lhes algo para comer, por favor.”Depois de algumas mordidas, eles querem falarsobre a vida após a morte. “Ui!,” eu digo,“vocês já viram aquela Greapleaf skeletonizer?”1Depois eles começam a falar sobre redençãoe dos poucos escolhidos para sentar ao lado Dele.“Fazendo o…
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Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti,que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez,para ti, cuja única certeza é tua memóriae, portanto, teu sepulcro mais infausto.Dura há de ser a vida, quando os anos passareme por fim destruírem a ilusória pátria da tua adolescência,quando vires, como hoje, este fantasmaque tempos atrás te consolou com…
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Jack Gilbert – Um sumário para a defesa

Diante do sofrimento e das perdas do mundo, o poema formula uma defesa da alegria sem ingenuidade. Jack Gilbert procura justificar a atenção ao esplendor cotidiano justamente porque conhece a dor que o cerca.