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Juan Vicente Piqueras – A sala vazia

a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos.O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Guardávamos silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogoàs vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, por exemplo: silêncio.E…
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Fernando Assis Pacheco – Tentas, de longe

Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
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Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato…
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Alberto Pucheu – A luta antes da luta

Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo…
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Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizaruma inspeção de obra em algum bairro estranhoe entro para tomar café em um pequeno baronde não me conhecem, penso que soualguém que parte para não mais voltar.Quando me refugio no vaziode um entreato e procuro a escadaque leva aos banheiros,sinto que ali poderia começar minha ausência.Instantes que…
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Tarso de Melo – Raiz e minério

ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os…
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Joan Margarit – Inverno de 95

Esta carta a escrevo para alguémque está em um barco pelo nortede Tenerife, em cinquenta e sete.Um rapaz que, da amurada,mira o duro poente sobre o mare estuda arquitetura em Barcelona,para onde retorna agora. Aviso-tecom um sinal de alerta: a alegriaque sentes ao deixar teu pai para trásrevela a solidão sob uma luz dourada.Teu pai…
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Ivan Junqueira – Estamos indo embora

Estamos indo embora. Sobre o piso de ardósia, por entre caules e corolas que exalam um perfume exótico, os gatos deslizam. São espíritos leves e sóbrios, com suas patas de veludo, silenciosas, que arranham a lombada dos livros e o verniz dos móveis. Os tapetes abafam seus passos ociosos, como se faz quando se acolhem…
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Joan Margarit – Alguém

Tinha que salvar-me com seus olhos azuis cravados ainda em uma lembrança da adolescência, a estranha fase de precipitar-se, sem queixa nenhuma, ao fundo do abismo. Do bonde, a fugaz imagem de uma garota em uma varanda, e o número de um telefone anotado como uma cicatriz na memória. Nunca estive a seu lado, inventava…
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Joan Margarit – No álbum

És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com…