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Manuel António Pina – Gare du Sud

Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos…
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Rui Pires Cabral – Recomeço

O primeiro cigarro do dia é na varanda quando faz sol: misteriosamente o terraço do vizinho continua a concentrar a tristeza do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas que te permitem perceber quem és, onde estás, o que terás de fazer a seguir. E a angústia que te abraça é a memória mais antiga…
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Rui Costa – A Minha Bisavó

A minha bisavó é um quadro na parede. Roída pela traça, ela sucumbe à dentição do tempo nos seus olhos escuros de discreta bruxa. Um dia a minha bisavó nem quadro há-de ser. Continuará, apesar disso, a beber a água do copo onde lavou as cerejas (fingindo-se distraída) e a arrazoar antes da visita extemporânea…
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Rui Pires Cabral – Welcome Break

Estações de serviço como ilhas de vidro no mar alto dos campos. O acaso governa as estradas e os viajantes que se cruzam despidos da teia do seu passado. Atravesso há horas um país chuvoso: anoiteceu e não se vê ninguém nas aldeias. Contra o seu escuro mistério, estas casas são reais? Nelas nasceu gente…
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Miguel Martins – Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no…
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Manuel António Pina – Os Mortos

Eu sei, é preciso esquecer, desenterrar os nossos mortos e voltar a enterrá-los, os nossos mortos anseiam por morrer e só a nossa dor pode matá-los. Tanta memória! O frenesim escuro das suas palavras comendo-me a boca, a minha voz numerosa e rouca de todos eles desprendendo-se de mim. Porém como esquecer? Com que palavras…
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Miriam Reyes – Imóvel

abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua…
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Paulo Henriques Britto – Queima de Arquivo

Houve um tempo em que eu amava em cada corpo o reflexo do que eu queria ter sido. No fundo do sexo eu buscava o meu desejo perdido. Acabei achando o outro que em mim mesmo destruí. Foi fácil reconhecê-lo: de tudo que vi em seu rosto somente o ódio era belo. Esse morto adolescente…

