Tag: Tempus Fugit
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Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio Há um livro chamado“Um Dicionário dos Anjos”.Ninguém o abre há cinquenta anos,Eu sei, porque quando o fizAs capas rangeram, as páginasdesmancham-se. Nele descobriQue os anjos eram tão abundantesQuanto moscas. Ao entardecer, o céuCostumava ficar repleto deles.Você precisava agitar os dois braçosApenas para mante-los à distância.Agora o sol brilhaAtravés de altas janelas.A biblioteca é…
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Eugenio Montale – O lago de Annecy

Não sei por que minhas memórias te relacionamao lago de Annecyque visitei alguns anos antes de tua morte.Mas na época eu não pensava em ti, era joveme julgava ser o senhor do meu destino.Por que uma memória tão enterrada é capaz deaflorar eu não sei; tu mesmacertamente me enterraste e nem percebeste.Agora ressurges viva, embora…
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Danusha Laméris – Nada quer sofrer

Nada quer sofrer após LInda Hogan Nada quer sofrer. Nem o ventoque arranha contra a encosta. Nem o penhasco sendo devorado, lentamente, pelo mar. A terra não quersofrer o pisoteio bruto de quem a ignora. As árvores não querem sofrer o machado, nem versuas irmãs derrubadas pela podridão, pelo mofo e oxidação de suas raízes. …
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Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]
![Laia Noguera Clofent – [Amo a vida simples]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2023/02/img_53191-scaled.jpg)
Amo a vida simples,de me sentar à entradapara ver as pessoas passar,como se move um pardal,como se inclina a tardenas casas do corpo. Já sei que morrereimuito antes de morreremas árvores que amo. Mas isso não me preocupa,porque no instanteem que se me romper o último fioserei só aquela mulherque se sentava à entradapara simplesmente…
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Ana Martins Marques – História

Leia “História”, de Ana Martins Marques, um poema original e filosófico sobre tempo, memória e as múltiplas temporalidades presentes no cotidiano.
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George Bilgere – Tudo bem

Estou aqui sentado na calçada, envelhecendo em um café,soltando a fumaça amarela e doentia da decomposiçãoenquanto as pessoas passam fingindonão notar, desviando o olhar para longeou para os seus telefones,fazendo o possível, por educação ou choque,para me ignorar sentado aqui envelhecendo,e eu não os culpo, é difícil de ver. E agora a garçonete em sua…
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Malena Mörling – Do trem

Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde…
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Diego Moraes – Já se passaram dez anos

Já se passaram dez anosAcabou a bateria do relógio que você me presenteou no natal queseu tio ficou bêbado de vinho Dom Bosco e disse na frente dos filhose da esposa que era gay e viveria com um travesti búlgaroem LondresJá se passaram dez anosOs poemas que escrevi quando gozava nos teus peitos de atriz…
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Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar numa cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos de pé no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você…
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Inês Lourenço – Sala Provisória

Nunca se sabequando estamos num lugarpela última vez. Numa casaque vai ser demolida, numa salaprovisória que vai encerrar, num velhocafé que mudará de ramo, comopágina virada jamais reaberta, comocanção demasiado gasta, comoabraço tornado irrepetível, numaporta a que não voltaremos. REPUBLICAÇÃO: publicado no blog originalmente em 02/12/2018