Tag: Medo
-
Carlos Drummond de Andrade – Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores,…
-
Carlos Drummond de Andrade – O Medo

Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia…
-
Ada Limón – Estrelas extintas

Aqui fora, até as árvores se curvam. A mão gelada do inverno nas costas de todos nós.Casca escura, folhas amarelas escorregadias, uma espécie de quietudetão silenciosa que parece pertencer a outra era.Ultimamente, sou uma morada de aranhas: um ninho de tentativas.Apontamos para as estrelas que compõem Órion enquanto levamos o lixo pra fora, os contêineres…
-
William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça,Negra como um Poço em sua inteireza,Agradeço a cada Deus pela graçaDe minha invencível natureza. Nas terríveis garras das circunstânciasNão recuei nem alteei meu pranto.Debaixo dos golpes das contingênciasMinha fronte sangra – altiva, no entanto. Além deste lugar de desenganos,Somente o Horror das sombras desponta,E entretanto a ameaça dos…
-
Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homemInconscientemente,Como uma folha passa o seu estremecimentoPara outra. De repente, a árvore toda está tremendo,E não há nenhum sinal do vento. Trad.: Nelson Santander Fear Fear passes from man to manUnknowing,As one leaf passes its shudderTo another. All at once the whole tree is trembling,And there is no sign…
-
Maya Angelou – Quando as grandes árvores caem

Quando as grandes árvores caem,rochas de colinas distantes estremecem,leões se escondemna relva alta,e até os elefantesarrastam-se em busca de segurança. Quando as grandes árvores caemna floresta,pequenas coisas recolhem-se ao silêncio,seus sentidoserodidos para além do medo. Quando grandes almas morrem,o ar ao nosso redor se tornaleve, raro, estéril.Nós respiramos, brevemente.Nossos olhos, brevemente,enxergam comuma dolorosa nitidez.Nossa memória,…
-
Jane Hirshfield – Encantamento para se recitar contra o ódio

Até que cada respiração repudie eles, aqueles, outros.Até que a Dramatis Personae da primeira página do livro diga: “Cada um deles é você.”Até que a esperança se dobre à sua desesperança apenas quando um ser se dobrar para outro.Até que a crueldade se dobre às suas ações e subitamente perceba: eu.Até que a raiva e…
-
Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]
![Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/09/pexels-photo-1001435.jpeg)
“secos são os homens sem sonhos”, um poema de Nelson Santander secos são os homens sem sonhos desertos rios de margens estreitas trilham apenas os caminhos que a terra dita
-
Gonçalo M. Tavares – Do “Diário da Peste”, 27/04/2020

Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe…
