Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]

secos
são os homens sem sonhos
desertos rios de margens estreitas
trilham apenas os caminhos que a terra dita
nunca refletem de volta
o brilho gratuito do mundo

o acaso
delimita suas fronteiras

os homens sem sonhos

eles são
     as velas apagadas
     os caminhos silenciosos brancos de neve
     a matéria da corda dos enforcados
     o silêncio nascido da ignorância
     a crosta e a superfície
     o fácil e o óbvio

apenas olham
e a maçã continua maçã
aliás seu olhar as coisas petrifica

modernas medusas
mitológicos zeros
esquecidos até mesmo pelos espelhos

mas o mundo ainda é o mesmo que sempre foi

ainda existem aqueles que olham as estrelas
e pensam – eu existo
outros há que escrevem poemas

          (semideuses para quem a alma humana
                    não representa segredo)

mas as maravilhas
as verdadeiras maravilhas

     (o dentro de uma gota de névoa
     as possibilidades infindas do oceano
     a morte no exato de sua hora
     a fagulha química que engendra a paixão
     e o suor brotando feito sangue – puro sangue –
                                      no dorso de um cavalo no galope
     e a menor partícula, essência das essências
     e o nada entre os mundos
     entre as estrelas
     os sonhos de Ariadne)

essas não são visíveis a olhos nus

     cegos são os homens sem sonhos
     mortos estão e julgam que dormem

o sono
     é o dos
          justos

 

                                                          14/05/1994

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