Tag: Família
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David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Era a primeira Vez que nus os nossos corpos Apesar da penumbra à vontade se olhavam Surpresos de saber que tinham tantos olhos Que podiam ser luz de tantos candelabros Era a primeira vez cerrados os estores Só o rumor do mar permanecera em casa E sabias a sal, e cheiravas a limos Que tivesses…
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Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

Não consigo narrar.Que pretérito me serviriase minha mãe já não me tece mais?Desamparada, então, eu me detenhodiante de um estado de coisas muito presente:ser a descuidada que dela cuidaenquanto outros a negligenciam por mim.São pessoas que me são dispensáveise a gramática se torna um escândaloquando ela, que esqueceu as palavras,manifesta-se em um arroubo raivosocom o…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Vitor Nogueira – Formol

A casa por sob o sótão. O sótão por sobre a casa. A casa por sobre a rua. A rua por sobre o mundo. À volta desta praça, quis o tempo conservados em formol os edifícios, esquinas de onde surgem cada vez mais perguntas sem aviso. Escondida pela fachada do liceu há-de estar ainda a…
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Ruy Belo – Através da chuva e da névoa

Chovia e vi-te entrar no mar longe de aqui há muito tempo já ó meu amor o teu olhar o meu olhar o teu amor Mais tarde olhei-te e nem te conhecia Agora aqui relembro e pergunto: Qual é a realidade de tudo isto? Afinal onde é que as coisas continuam e como continuam se…
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Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é demasiado grande. Tua mãe e eu esvaziamos teus armários e seguimos por mesas e prateleiras, de retrato em retrato, teus sorrisos. À noite os espelhos, sob a luz elétrica, expõem com mais ênfase o teu vazio. Os móveis são agora mais escuros. Pela escada desce a cálida balaustrada que…
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Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Eu vendi o relógio do meu avô, seu ouro nacarado e padrões pontilhados, para ser derretido. Engrenagem condenada. Tampa faltando. Corrente — deve ter havido uma — faltando. Números que foram pintados com um única e hábil cerda. Dei corda na coroa antes de entrega-lo por sobre o balcão. O homem gentil agarrou o que…
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Miriam Reyes – Imóvel

abandonado a teu peso de homem imóvel olhas-me com antiquíssimos ressentimentos. Ouve-me bem: sou inocente de teu passado não sou a tua puta mãe nem a tua enferma mãe nem a tua louca mãe embora seja uma puta louca. Não mereço receber agressões alheias, atrasadas e caducas. Não projetes em mim os fantasmas de tua…
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Joan Margarit – Um pobre instante

A morte não é mais do que isto: um quarto, a luminosa tarde na janela, e este toca-fitas na mesinha tão desligado como o teu coração com todas as tuas canções cantadas para sempre. Teu último suspiro segue dentro de mim, todavia em suspenso: não deixo que termine. Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?…
