Tag: Família
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José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
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Manuel Halpern – Domingo de manhã

Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há…
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Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se…
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José Fernando Guedes – Adeus meu pai

Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu…
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Manuel António Pina – As vozes

A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
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Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis…
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Manuel António Pina – Gare du Sud

Tudo o que temos pertence a outros, desconhecidos de nós, e ainda a outros, e temo-lo como se o perdêssemos ficando uma sombra, a nossa sombra. Estamos longe de casa e essa sombra é a única morada a que podemos acolher-nos. A nossa voz não somos capazes já de ouvi-la, balbuciante; e se a ouvíssemos…
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José María Cumbreño – Identidade

Durante anos, a roupa que vesti herdei do meu irmão mais velho.Meu nome me foi dado em homenagem ao meu avô.O primeiro carro que dirigi era de segunda mão.A primeira mulher que me beijou já havia beijado outros.A casa em que moro é alugada.Tudo o que eu vier a escrever alguém já terá escrito muito…
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Walter de la Mare – Os que ouviam

“Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o…
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Ian Hamilton – Pai, Morrendo

Seus dedos, tufos de pelos de cobertor Debaixo das unhas, estendem-se para tocar As rosas ao lado da cama despetalando com o calor. Caem pétalas brancas. Aprisionadas em suas mão Elas escurecem, empapadas em suor, depois enrolam, Desidratam-se e desmoronam. Hora após hora Elas gotejam do ramo. Por fim Ele está limpo e, quando você…