Tag: Família
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Gonçalo M. Tavares – Do “Diário da Peste”, 27/04/2020

Passados sete anos, duas semanas ou dois meses. Sairá à rua uma nova espécie humana. Cheia de vontade de construção; cheia de vontade de destruição. Humanos 2.0. Dois médicos beijam-se em Madrid com a máscara posta. Os amantes, quadro de René Magritte: uma mulher e um homem beijam-se com um pano na cabeça. A mãe…
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Dorianne Laux – Interstício

Nós montamos o quebra-cabeça peça por peça, apreciando como um entalhe curvo se insere tão suavemente no outro. Uma mancha amarela se transforma na palha de uma vassoura, e duas peças azuis completam o último pedaço do céu. Juntos, remendamos as cadeiras de balanço e as árvores do outono, combinando ouro com ouro. Temos nas…
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Marie Howe – Quantas vezes

Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai de entrar no quarto da minha irmã e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar em seus olhos. Está escuro no corredor e todos estão dormindo. Este é o passado onde tudo já está perfeito e nada muda, onde o copo de água…
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Kevin Hart – Noites

Não há nada que eu realmente queira: As estrelas hoje à noite são profusas e frias Acima da minha casa que vagamente paira em uma via logo perdida nas trevas. Meu prato raso está todo lascado (o que indica que mudei bastante); Meu copo está rachado de um lado (isso mostra que há um rumo…
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David Ignatow – Para a minha filha

Quando eu morrer, escolhe uma estrelae dá-lhe o meu nomepara que saibas quenão te abandoneinem te esqueci.Foste para mim uma estrela,guiando-me pelo teu nascimentoe infância, minha mãona tua mão. Quando eu morrer,escolhe uma estrela e dá-lheo meu nome para que eu possa brilharsobre ti, até que te juntes a mimna escuridão e no silênciojuntos. Trad.:…
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Raúl Ferruz – Com os olhos bem abertos

Quando meu avô sorria depois de cada gole de água,isso significava. Não sabes o que é beber o próprio mijo.Quando desenhava uma parábola no ar que só ele via,isso significava. Fogo cruzado.Quando tapava o rosto para que não o víssemos chorar,isso significava. Os alemães nos infligiram horrores.Quando fechava a porta do banheiro para que não…
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Joan Margarit – Despedidas

Ela o acompanhava até o primeiro trem que partia às segundas antes do amanhecer, e naquele bar costumavam despedir-se, o mais próximo da Estación de Francia. Evoco os invernos detidos atrás das vidraças da infância. E talvez esta seja sua mesa, onde agora lembro-me de que, naquela mesma hora, eu estava na penumbra do meu…
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Laurie Lee – A sombra abandonada

Percorrendo a sombra abandonadadas habitações da minha infância,meus ouvidos relembram o badalar,ouvindo suas vozes soterradas. Ouço o verão primordial,as margens da aurora iluminadas por aves,o pulsar de sangue da escrevedeira-amareladourando meus olhos de berço. Ouço a lua-de-estanho subire a moeda do crepúsculo cair,o rastejar da geada e o gemidodo degelo e o pio dos piscos…
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Jane Hirshfield – Meu esqueleto

Meu esqueleto, que um dia doeu com o próprio crescimento, está agora, a cada ano imperceptivelmente menor, mais leve, absorvido por sua própria concentração. Quando eu dancei, você dançou. Quando você quebrou, eu. E assim foi, deitando, caminhando, subindo os fatigantes degraus. Seus maxilares. Meu pão. Algum dia você, o que resta de você, será…
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Alberto Szpunberg – De “Sol de noche”

XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos…