Tag: Espiritualidade
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Fernando Assis Pacheco – Respiração Assistida

Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a…
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Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
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Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.…
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Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o…
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Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a…
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Jorge Luis Borges – João 1,14

Não será menos enigmática esta páginaque as de Meus livros sagrados nem aquelas outras que repetemas bocas ignorantes,por julgá-las de um homem, não espelhosobscuros do Espírito.Eu que sou o É, o Foi e o Serátorno a condescender com a linguagem,que é tempo sucessivo e emblema.Quem brinca com um menino brinca com algopróximo e misterioso;eu quis…
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Walter de la Mare – Os que ouviam

“Está aí alguém?”, disse o Viajante Batendo à porta de luar; A relva, chão de fetos da floresta, Pôs-se o cavalo a devorar. Sobre a cabeça do Viajante, um pássaro Voou da torre para além. E ele feriu a porta uma outra vez, Dizendo: “Está aí alguém?” Do peitoril da janela, ninguém Desceu até o…
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José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro…
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-las cedo porque nesse dia chegou também o frio e passamos a manhã falando do tempo. São duas, e me pergunto que destino imprevisto as trouxe a esta árvore precisa, a este lugar exato em que o tempo delas cruza, como um sinal confuso, nosso tempo. De tarde falamos sobre elas: “Esta…