Tag: Carpe Diem
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Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva Requer olhos que vêem, como o som. E o silêncio requer o ouvido, O espelho, a forma que o povoa. Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer Uma divindade que premedita O silêncio anterior à primeira Noite do tempo, que será infinita. O grande rio de Heráclito o…
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Cassiano Ricardo – Dedicatória

I Ao claro tempo, ao tempo das metamorfoses, não havia horizonte na alegria do ser e do acontecer. Havia a graça aérea com que as coisas brincavam de ser e de não ser, no jardim da matéria. Hoje uma coisa passa a ser outra coisa; nascem anjos sem asa dentro do dicionário; um monstro, um…
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Machado de Assis – Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável, que a si mesma devora os membros e as entranhas, com a sofreguidão da fome insaciável. Habita juntamente os vales e as montanhas; e no mar, que se rasga, à maneira de abismo, espreguiça-se toda em convulsões estranhas. Traz impresso na fronte o obscuro despotismo. cada olhar que…
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Giacomo Leopardi – O Infinito

Sempre cara me foi esta colina Erma, e esta sebe, que de tanta parte Do último horizonte, o olhar exclui. Mas sentado a mirar, intermináveis Espaços além dela, e sobre-humanos Silêncios, e uma calma profundíssima Eu crio em pensamentos, onde por pouco Não treme o coração. E como o vento Ouço fremir entre essas folhas,…
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Adriana Calcanhotto – Jovens e Velhos

Antes de mim vieram os velhos Os jovens vieram depois de mim E estamos todos aqui No meio do caminho dessa vida Vinda antes de nós E estamos todos a sós No meio do caminho dessa vida E estamos todos no meio Quem chegou e quem faz tempo que veio Ninguém no início ou no…
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W. H. Auden – Ao Descer a Rua Bristol

Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte…
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Jorge Luis Borges – Aqui. Hoje.

Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as…
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Carlos Drummond de Andrade – A Corrente

Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
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William Shakespeare – do Macbeth (excerto)

Amanhã amanhã amanhã amanhã Rasteja em passo parco dia a dia Até a última sílaba do Tempo. E os ontens, todos, só nos alumiam O fim no pó. Apaga, apaga, vela Breve! A vida é só uma sombra movel. Pobre ator Que freme e treme o seu papel no palco E logo sai de cena.…
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Arthur Schopenhauer – A Vida é Dor

Quem deseja, sofre; quem vive, deseja; a vida é dor. Quanto mais elevado é o espírito do homem, mais sofre. A vida não é mais do que uma luta pela existência com a certeza de sermos vencidos. A vida é uma incessante e cruel caçada onde, às vezes como caçadores, outras como caça, disputamos em…