Jane Routh — Um lugar

Quando você viveu toda sua vida adulta em um só lugar,
você derrubou árvores. Você as plantou muito próximas
ou bloqueavam a visão ou algumas adoeceram. Como nós,

elas crescem até os vinte anos, e depois engrossam. Isso se aplica
aos freixos e às bétulas, mas não aos carvalhos: eles são
atrofiados. Você nunca sabe a forma que um carvalho assumirá.

Você joga as toras no fogão sem se arrepender, embora
ainda sejam reconhecíveis – aquela bétula perto da cozinha,
e até mesmo este tronco de eucalipto do jardim.

Eu ainda planto árvores, embora saiba que não verei
como elas irão crescer e não consiga nem imaginar
as formas que elas poderão ostentar contra o céu invernal.

*

As calhas estão entupidas, cheias de curtas vogais.
Vamos enterrar meu vizinho amanhã, meu aniversário.
Há previsão de frio, depois, de neve. Veremos.

Quando você vive em um lugar há tanto tempo, há alguém
que você conhece em cada fileira. Da maneira como se resolveu,
meus amigos ficaram do outro lado, junto ao muro.

O carro funerário tem que ir pelo caminho mais longo, através da charneca.
É mais perto a pé, embora ainda pareça distante do mundo,
a igreja em sua depressão, as paredes de pedra.

*

Quando você viveu sua vida em uma comunidade
e se reúne com seus vizinhos para um enterro,
você pensa o mesmo que todo os que ali estão:
aquele é o Tom? – continua bonito, embora o casaco
esteja muito justo nos ombros. Nós polimos nossos óculos,
seguramos o hinário com o braço estendido.
George está completamente grisalho agora. Ruby também.
Um de nós será o próximo: o que alguém lembra
que dissemos uma vez já passou e se repetiu.
Logo todos nós seremos histórias – apenas histórias, sem nomes.

*

Um leque perfeito preservado na neve
onde um faisão pressionou sua cauda aberta
para a decolagem. O túmulo fica bem ao lado da trilha.

Quando você viveu a maior parte de sua vida com as mesmas pessoas,
compartilhando com elas o mesmo tempo e cortes de energia e inundações,
elas começam a transmitir suas histórias que mantêm a mortalidade longe.
Você deve se lembrar dos nomes
embora até mesmo o narrador se esqueça: a quem pertencia o campo superior
acima do cemitério naquela época, Billy Morphet?
ou ao irmão dele? de qualquer maneira, ele e o coveiro
estavam fumando um cigarro, ambos encostados na parede,
quando Jimmy Read apareceu. Sem nada dizer,
ele entra na cova, deita-se e fica imóvel
– reflita sobre isso, ele deitado ali, escutando –
o coveiro quase cai sobre ele com o choque.

Lembre-se, ele diria depois, são seis pés… é uma longa descida.

*

Quando você conhece um lugar por toda a vida, não precisa de mapas;
todos os nomes têm suas formas e suas texturas:
Helks, Jacksons Pasture, Perry Moor – mesmo os campos
têm nomes: Robins Close, Parrocks Meadow.

Mas quem foi Jackson? quem foi Robin? – você não sabe nada
sobre eles, as pedras datadas que eles colocaram sobre suas soleiras
sobreviveram a eles como sabiam que sobreviveriam –
mas sem denomina-los. Apenas o ano e as iniciais.

O único grande carvalho no topo da Floresta Velha
rio acima – quem o plantou? Ou foi um gaio-azul?
Desde que Ken instalou para mim a sebe à beira da estrada no ano passado,
quem por ali passa pode ver as árvores que plantei há vinte anos

como se fossem novas e repentinas. Já ouvi dizer que as chamam de Ken’s Wood
– não Jane’s. Elas parecem adoráveis da estrada,
troncos fortes e retos e muito mais além do terreno elevado.
Espalhei sementes de dedaleira entre elas, e alhos-selvagens também.

Trad.: Nelson Santander

One Place

When you’ve lived all your adult life in one place,
you fell trees. You planted them too close
or blocked the view or some sickened. Like us

they go for height till they’re twenty, then thicken. That’s true
of the ash and the birch, but not oak: they’re
stunted. You never know how an oak will shape up.

You drop logs in the stove without regret, though
they’re recognisable still – that birch by the kitchen,
and even this length of eucalypt from the garden.

I’m still planting trees, though I know I’ll not see
how they’ll grow and can’t even imagine
the shapes they might make against winter sky.

*

Downspouts are busy, full of short vowels.
We’re burying my neighbour tomorrow, my birthday.
Ice is forecast, then snow. We’ll see.

When you’ve lived in one place so long, there’s someone
you know in every row. The way it’s worked out,
my friends are at the far side, by the wall.

The hearse has to go the long way, over the moor.
It’s nearer on foot, though it still feels removed from the world,
the church in its hollow, the stone walls.

*

When you’ve lived your life in one parish
and gather with neighbours for a burial,
you think the same thoughts as everyone else:
is that Tom? – still handsome, though that coat’s
tight on the shoulders. We polish our glasses,
hold hymn sheets out at arm’s length.
George is completely white now. Ruby is too.
One of us will be the next: what someone remembers
we said one time passed round and repeated.
Then all of us will be stories – just stories, no names.
*
A perfect fan preserved in the snow
where a pheasant pressed down its spread tail
for take-off. The grave’s right next to the footpath.

When you’ve lived most of your life with the same people
sharing your weather and power cuts and floods,
they start to pass on their tales that keep mortality at bay.
You’re supposed to remember the names
though even the teller forgets: who was it had the top field
above the graveyard in those days, Billy Morphet?
or his brother? anyway, he and the gravedigger
were having a smoke, the two of them up by the wall,
when Jimmy Read comes along. He doesn’t let on:
he gets in the hole and lies down and keeps quiet
– just think on it, laid there, listening out –
the gravedigger nearly falls in on top with the shock.

Mind you, he said after, six foot… it’s a long way down.

*

When you know a place lifelong, you’ve no need of maps;
every name has its shapes and its feel underfoot:
Helks, Jacksons Pasture, Perry Moor – even the fields
have names: Robins Close, Parrocks Meadow.

But who was Jackson? who was Robin? – you know nothing
of them, the datestones they set over their doorways
outlasting them as they knew they would –
but not calling them up. Just the year, just initials.

The one great oak at the top of the Old Wood
above the river – who planted that? Or was it a jay?
Since Ken laid the roadside hedge for me last year,
passers-by can see the trees I planted twenty years ago

as if they’re new and sudden. I’ve heard it called Ken’s Wood
– not Jane’s. They look lovely from the road,
strong trunks and straight and more beyond on rising ground.
I scattered foxglove seeds among them, and ramsons too.

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