Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Carlos Drummond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho.…
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Donizete Galvão – Solitude

Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que…
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Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO De amargobastao amor Agridoce,ela disse Mas a mimpareceuamargo CADEIRA I Repetesdiariamenteos gestosdo primeiro homemque se sentounuma tarde quenteolhando as savanas II Pousode gigantescos pássaroscansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesaessas doces evidênciasda morte? CRISTALEIRA Guardae revelaa nudezbrancada louçao incêndiodespareadodos cristais TALHERES Colher Se o sol nelabatesseem cheiopor exemplonuma mesa postano jardimimediatamente…
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Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
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Paulo Henriques Britto – Envoi

O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se…
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Vinicius de Moraes – O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe…
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Abel Silva – Navegações

Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Carlos Drummond de Andrade – A Luis Mauricio, Infante

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e…
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Angela Melim – Meu pai nos abandonou

Meu pai nos abandonou.Minha mãe casou e mudou.Vovó morreu.Os irmãos sumiram no mundoou submundo.Sem explicaçãoYvonne nunca mais falou comigoe, para Ronaldo,sou fantasma do passado.Vejo meus filhos já voando.Nem um pássaro na mão. in http://asescolhasafectivas.blogspot.com.br/2007/12/angela-melim-mencionada-por-laura-erber.html REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/03/2017