Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Paulo Henriques Britto – Geração Paissandu

Vim, como todo mundodo quarto escuro da infância,mundo de coisas e ânsias indecifráveis,de só desejo e repulsa.Cresci com a pressa de sempre. Fui jovem, com a sede de todos,em tempo de seco fascismo.Por isso não tive pátria, só discos.Amei, como todos pensam.Troquei carícias cegas nos cinemas,li todos os livros, acrediteiem quase tudo por ao menos…
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Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nadalhes pediu, o que um dia levam embora;e se não foi pedida a coisa dadanão cabe se queixar da perda agora.Mas não ter tido nunca nada, nãoseria bem melhor — ou menos mau?Mesmo sabendo que uma solidãocompleta era o capítulo final,a anestesia valeria o preço?(Rememorar o que não…
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Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

I A seletividade da memória —a cor exata da pele, a textura,o odor de cada côncavo e orifício,o lábio, a língua, o dente, o plexo solar, a sola do pé, o suor e asaliva, a coxa arisca, a dobra escura,o beijo salobro, o sabor difícil,a carne assombrada, o esperma perplexo — falsa perfeição, mero artifíciodo…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

(…) ii Não volta mais, aquele voo cego rumo ao que nunca esteve lá, porémsó surge em pleno ar. E não renegoa rota tonta que segui. Ninguémse faz em linhas retas. Todo portoa que se chega é a meta desejada.E o caminho tomado, por mais torto,acaba sempre sendo a exata estradaa dar naquilo que, afinal,…
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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

(…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso.…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O…
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Paulo Henriques Britto – Balanços

(…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de…
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

(…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas…
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem…