Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto…
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Paulo Henriques Britto – De “Seis Sonetos Soturnos”

I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice–versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos…
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil —…
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Daniel Filipe – Réquiem para um defunto vulgar

Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
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Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a…