Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de…
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Jack Gilbert – O vale abandonado

O retorno imaginado a um vale vazio revela o que a passagem do tempo retirou da paisagem e de quem a habitou. Ausência e memória transformam o lugar abandonado em medida de uma vida desaparecida.
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

(…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas…
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Jane Kenyon – O pretendente

Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We…
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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem…
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Roderick Ford – Giuseppe

Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto…
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R. S. Thomas – O campo brilhante

Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um…
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Paulo Henriques Britto – De “Seis Sonetos Soturnos”

I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice–versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos…
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Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas

Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se…