Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no…
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Lucille Clifton – o poema do bebê perdido

na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela…
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Gwendolyn Brooks – a mãe

“A mãe”, um poema de Gwendolyn Brooks que aborda a experiência do aborto a partir da perspectiva íntima e emocional de uma mulher que recorda os filhos que não chegaram a nascer.
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase…
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Victoria Kennefick – Monte submarino

Da areia, você aponta onde ficava a loja,os correios, o bar;você me conta que caminhou até o vilarejo quando meninopara ficar nas esquinas, farejar o ar salgado. Tocos se erguem da argila na maré baixa,alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,esquecidos do verde vivo das folhas na primavera.…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não seespera do mundo nada em especial,e a evidência de que os anos vão seacumulando sem nenhum sinalde sentido já não dói nem comove —quando em matéria de felicidadenão se deseja mais que uns novemetros quadrados de privacidadepara abrigar os prazeres amenosdo sexo fácil e da literaturadifícil —…
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Daniel Filipe – Réquiem para um defunto vulgar

Antoninho morreu. Seu corpo resignadoé como um rio incolor, regressando à nascentenum silêncio de espanto e mistério revelado.Está ali – estando ausente. Jaz de corpo inteiro e fato preto.Ele, da cabeça aos pés,trivial e completo,estátua de proa e moço de convés. Jaz como se dormisse (pelo menosé o que dizem as velhas carpideiras).Jaz imóvel, sem…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1.Chegamos tarde. (Era sempre maio,sempre madrugada. Tudo era turvo.Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidadeaberta, e uma loucura provisóriaera a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todoatento, em transe, em trânsito, no assédioa um ou outro flanco do lobo, fugindo de junho, perseguindo o agora,correndo…
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Joan Margarit – Amar é onde

“Amar é onde”, um poema de Joan Margarit que transforma o amor em território íntimo e duradouro, um lugar invisível onde a vida encontra sua origem e sua permanência.
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breue num rápido relance dá formae cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que podeàs aparências, acredita piamenteno sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forçascontra o conforto de apagar-se enfimpor trás de duas implacáveis pálpebras. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…