Categoria: Poema
-
Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os rapazes da fazenda encontrarem estaaberração da natureza, eles envolverão seu corpo em jornal e o levarão para o museu. Mas esta noite ele está vivo e no campoao norte, com sua mãe. É uma noite perfeita de verão: a lua crescente sobreo pomar, o vento na grama. Equando ele olha para o…
-
Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vêlá onde o amor corrói a carne a fundo.Dentro da pele, no entanto, vocêé só você contra o mundo. Esta felicidade que abasteceseu organismo, feito um combustível,é volátil. Tudo que sobe desce.Tudo que dói é possível. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022
-
Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.

Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.Adoraria preparar um camarão saganaki para você.Como você costumava me fazer quando estava viva.Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegantetigela de pilaf. Pequenos tomates tostadoscobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.Adoraria caminhar até os correios com…
-
Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a…
-
Sahar Romani – Tarde na Andaluzia

Mas por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão confiança no uno & no infinito Uma vez em Granada estudei um muro de polígonos ou seriam estrelas ou abelhas ou por um segundo um lampejo de gladíolos num campo até que…
-
Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que…
-
Ellen Bass – A dor de deus

Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e…
-
Carlos Drummond de Andrade – Fragilidade

Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em…
-
Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?

Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the…
-
Carlos Drummond de Andrade – Ontem

Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016