Tag: Vida
-
Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no…
-
Robinson Jeffers – Regresso

Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento…
-
Linda Pastan – Dor

Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,chamando a si mesma pelo teu nomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumeteu próprio fôlego.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam ter…
-
Ada Limón – Instruções para não desistir

Mais do que os funis fúcsia irrompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão-doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o choque de brancoe caramelo — os berloques e bugigangas do mundo — deixaa…
-
Jaime Gil de Biedma – Lembre-se

Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo em sonhos na memória: estremece eterno o tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado rumo a um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre submergindo o passado. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado no…
-
Nelson Ascher – Visita ao asilo

Subsistem devagar nojardim da última infânciasorvendo desdentadosde vida (além de dentes) o caldo-de-galinhahospitalar dos dias.Opacas as retinase os tímpanos à prova de som, eles combinamremorsos de placentadensos de urina e restosmortais que, amortalhados folgadamente em peloacima do seu número,apegam-se obsessivosaos ossos descalci- ficados como, à ideiade podre, os urubus.Sinapse piedosaque, entre neurônios secos, censura todo…
-
Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma…
-
Carolyn Creedon – Mulher, minada

Na seção de cosméticos da Lord & Tayloreles a pegarão ali mesmo, bem à vista de todos, às claras, e a fotografarão com uma câmera ultravioleta,mostrando-lhe o que você fez com sua pele apenaspor viver, seu rosto subitamente exposto, como aquilo querealmente está acontecendo sob uma tora levantada, a verdadeira vocêque você é, capturada e…
-
Cassiano Ricardo – O Relógio

Diante de coisa tão doídaconservemo-nos serenos. Cada minuto de vidanunca é mais, é sempre menos. Ser é apenas uma faceDo não ser, e não do ser. Desde o instante em que se nascejá se começa a morrer. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 17/04/2016
-
Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas…