Tag: Família
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Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto

a Roniwalter Jatobá Vamos beber qualquer coisa,que a vida está um desertoe o coração só me pulsasombras de Ido e do Incerto. Vamos beber qualquer coisa,que a lua avança no mare há salobros fantasmasque não quero visitar. Vamos beber qualquer coisaamarga, rascante, rude,brindando sobre o…
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Deborah Pope – Passando

Como um carro engatado,uma galinha estúpida demais para perceberque sua cabeça se foi,ou aquele som que não cessamesmo depois do filmeter caído da bobina,um telefonetocando e tocandona casa de onde todosse mudaram,através de salas onde o póse aprofunda em camadas,e o cadeado é desnecessário,assim eu continuo te amando,meu coração claudicando,um músculo entornandoo que não é…
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Juan Vicente Piqueras – Como estás

Morri na última terça-feira e ninguém notou. O mundo permaneceu o mesmo, mudando e imutável.Não houve furacão, anúncio, tempestadeou nuvens por entre as quais surgisseaquele raio de luz que aparecianas capas dos catecismos. Minha filha continuou a servir-me o chá no mesmo horárioe eu continuo a sorve-lo em pequenos goles com o canudinho que ela…
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Ellen Bass – Fracasso

Eu parecia uma mulher. Tinha começadoa sangrar, algo que eu desejara com fervor,com o fervor com que ardiapor beijar Earl Freeman, sentir seu suor de homeme percorrer com os dedos a concavidade de seu peitoquando estávamos deitados na areia quente em Atlantic City,o céu claro arqueado sobre nós. Eu tinha tanta pressade crescer, dizia minha…
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Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…
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Ellen Bass – A longa recuperação

Quando você voltava para casa vindados campos de morango, eu despejavaa sujeira das barras de sua calça jeans,e removia a terra lamacenta dos joelhos.Isso me fazia querer lamber o suor do seu pescoço, provar o saldas fendas empoeiradas. Não, não,eu digo agora ao meu estúpido sexoque, como um cão, não consegue entender.Eu sei que sou…
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Ellen Bass – A manhã seguinte

Você está na pia da cozinha, derramando água ferventesobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.Você está correndo para embalar seu almoço, encaixandoas tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãepara dizer-lhe que vai leva-la ao médico.Não vejo um traço do pequeno…
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Ellen Bass – Borboleta morta

Durante meses, minha filha carregou uma borboleta-monarca morta em um pequeno recipiente.Em sua mochila, o inseto ia e vinha da escolapara a casa de sua única amiga. À mesa de jantar,ele se acomodava, como um convidado, ao lado da carne assada.Ela o levava para a cama, apoiando-o em seu travesseiro. Foi no ano em que…
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Ellen Bass – Rendição

Pensei que ela iria querer me poupardaquilo, do mau cheiro e da vergonha,mas na última semana, a da morte,minha mãe me deixou trocar suas fraldas,me deixou secá-la com um pano úmido e quentee deslizar o lençol sob os seus quadris,a pele amolecendo, os ossos dilatando,a gravidade chamando-a de volta a terra como algum fruto caído.Eu…
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Ellen Bass – O panorama geral

Eu tento ver o panorama geral.O sol, língua ardenteque nos lambe como uma mãe encantada por sua nova cria, se consumirá.Tudo é transitório.Pense no meteoro que aniquilou os dinossauros.E antes disso, nos vulcõesdo Permiano — todas aquelas samambaias e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —que foram extintos em uma escalaque faz com que nossas…