Ellen Bass – A longa recuperação

Quando você voltava para casa vinda
dos campos de morango, eu despejava
a sujeira das barras de sua calça jeans,
e removia a terra lamacenta dos joelhos.
Isso me fazia querer lamber o suor
do seu pescoço, provar o sal
das fendas empoeiradas. Não, não,
eu digo agora ao meu estúpido sexo
que, como um cão, não consegue entender.
Eu sei que sou menos que um cisco no planeta,
o planeta é menos que um cisco,
e assim por diante. É sagrado
ou insano que eu me importe tanto
comigo mesma, que você
signifique tanto para mim? De que me serve
volta-la de novo e de novo
para o sol? Tenho idade
suficiente para saber que não há nada
que amemos sem incorrer
na dívida da dor. As folhas de bordo
bordadas de carmesim. O peito
brilhante amarelo da toutinegra, seu
pio-pio pio-pio pio cantar.
Sua mão, ao levantar uma xícara, cheia
de veias, enrugada, a pele
solta quase transparente, quase familiar
como a minha. Como posso mergulhar mais fundo
nesta vida? Por que
acho que há algo melhor que
eu poderia estar fazendo?
Sinto a sua falta. Sinto a sua falta. Creio
em seu cheiro animal. Creio que as estrelas
ardem no desnudo céu diurno.
Creio que a terra se precipita através do espaço,
embora hoje eu não possa sentir a menor brisa.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “The Long Recovery”. In:_____Indigo. EUA: Copper Canyon Press, April 07, 2020.

Miniantologia Poética – 27

The Long Recovery

WHEN YOU would come home
from the strawberry fields, I’d empty
the dirt from the cuffs of your jeans,
scrub the mud ground into the knees.
It made me want to tongue the sweat
from your throat, taste salt
from the dusty crevices. No, no,
I say now to my dumb sex,
that like a dog can’t understand.
I know I’m less than a speck on the planet,
the planet less than a speck,
and so on. Is it sacred
or insane that I matter so much
to myself, that you
matter so much to me? What use
is my turning you again and again
toward the sun? I’m old
enough to know there’s nothing
we love without incurring
the debt of grief. The maple leaves
just edged with crimson. The bright
yellow breast of the warbler, its
swee swee swee sweetie cry.
Your hand, as you lift a cup, riddled
with veins, ruched, the loose
skin almost transparent, almost familiar
as my own. How can I hurl myself deeper
into this life? Why
do I think there’s something better
I could be doing?
I miss you. I miss you. I believe
in your animal scent. I believe stars
burn in the blank day sky.
I believe the earth rushes through space
though today I can’t feel the slightest breeze.

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