Categoria: Poema
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Mário Chamie – Cervo, Servo

1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas,…
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Elizabeth Bishop – A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;Tantas coisas contêm em si o acidenteDe perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,A chave perdida, a hora gasta bestamente.A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério:Lugares, nomes, a escala subseqüenteDa viagem não…
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Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro,…
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Bertolt Brecht – Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza
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Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito

Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer,…
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Manuel Bandeira – Renúncia

Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua…
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Carlos Drummond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor…
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Nicanor Parra – Cartas a uma Desconhecida

Quando passarem os anos, quando passarem os anos e o ar tenha cavado um fosso entre tua alma e a minha; quando passarem os anos e eu só seja um homem que amou, um ser que se deteve um instante diante de teus lábios, um pobre homem cansado de andar pelos jardins, onde estarás tu?…
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Nicanor Parra – Acácias

Passeando anos atrás por uma rua cheia de acácias em flor soube por um amigo bem informado que você tinha acabado de se casar. Respondi que por certo eu não tinha nada a ver com o assunto. Mas apesar de nunca ter amado você – e disso você sabe melhor do que eu – cada…
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José Saramago – Ouvindo Beethoven

Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para…