Categoria: Poema
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Fernando Moreira Salles – Legado

Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
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Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e…
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Ana Martins Marques – entre a casa/ e o acaso,

entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
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Gregório de Matos – Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto…
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Paulo Nunes – A um antianjo

Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
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Eucanaã Ferraz – De “Orelhas” (1)

Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa;…
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Mia Couto – O Espelho

Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
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Mia Couto – A Luz da Dor

O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo…
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Armando Freitas Filho – Escritor, Escritório

Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que…
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Armando Freitas Filho – Antiquário

Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa…