Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
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Joan Margarit – Helena

O ontem é teu inferno. É cada instanteem que, sem sabê-lo, te perdestee também cada instante em que foste salvo.Quando o jovem que foste está muito distante,o amor é vingança do passado.Vens de uma guerra em que foste vencido,de armas e acampamentos abandonadosna Troia que levas dentro de ti.Buscar-te-ão de noite os aqueose estreitarão o…
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Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim…
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Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter…
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Rui Caeiro – Sabem que mais?

Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho…
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Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures

No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer…
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Vicente Gaos – A vida

Os ardorosos signos da vidapulsam na atmosfera do verão.O mar respira tal como um varão,como uma criatura enfurecida. Oh gozo e amor, sangue furioso,cósmica vibração de um mundo arcano.Mundo que sinto ao tatear teu crâniofrágil quando nele minha mão pouso. Te amo, sim, te amo, sonho forte,Fecho os olhos e te sinto inteira– Oh luz…
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Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a…
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Ramón de Garciasol – Ávila do Silêncio

Silêncio: cala-me até as raízes, lava minha carne, meu suor de morte, a caspa cotidiana. Quero ver-te, Senhor, em paz, pelo que me dizes sem esta feroz contenda confusa, extinta a chama, pedra pura de eternidade sem fim, viva verdura sem o sal da dor e das cinzas. Silêncio: chove mais. A terra dura está…
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Ian Hamilton – Legado

Estamos no inverno agora e estou aquecido, Acamado, feliz por ter sobrevivido. Minha mobília Me cerca. Eu posso alcançar meus livros. E você, noite após noite, Até “o fim” Ficará comigo. Entre nós Há lenitivos, esta dor E estes poemas inacabados eu lego a você. Muitas vezes deve ser assim. Escurecemos suavemente enquanto você conta…