Categoria: Poema
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Paulo Henriques Britto – À margem do Douro

Não espero nada, e já me satisfaçocom a consciência de ainda estar em mime não de volta ao nada de onde vim.Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,junto a uma mesa no Cais da Ribeira;permito-me, sem culpa, desfrutarde pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,todo o entorno da minha cadeira.Que os dias que…
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Joan Margarit – Professor Bonaventura Bassegoda

Recordo-o alto e gordo, atrevido, sentimental. Você, então, era uma autoridade em Alicerces Profundos. Sempre iniciava suas aulas assim: “Senhores, bom dia. Hoje faz tantos anos, tantos meses e tantos dias que minha filha morreu”. E costumava secar algumas lágrimas. Tínhamos vinte anos, mais ou menos, e o homem corpulento que você era, chorando no…
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Rui Knopfli – Fim de tarde no café

Na tarde cor de azebre falávamos de coisas amargas. Ali, na mesa triste do café com moscas adejando sobre restos de açúcar e um copo de água morna de esquecida, falávamos da amargura das coisas, entre rostos graníticos e enxovalhados, entre estranhos e estranhos de estranhos e os que, nada tendo de estranhos, cuidam de…
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Juan Vicente Piqueras – Os deuses dentro

Os deuses não compreendem a estranha insensatezcom que decidimos acabar conoscoacabando com eles, o orgulhocom que os desprezamos. Os deuses sabem mais e melhor que nóso que nos faz falta. Pedimos-lhes um filhoe nos mandam um lobo, e não os compreendemos. A vida a cada dia os esquece.A morte à noite os inventa. E as…
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Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha, ainda que seja a da insônia. Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho e contemplas pela vidraça a eternidade familiar. Por que te atormentarias querendo saber se nascimento e morte são apenas…
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Bruno Darcoleto Malavolta – Epicurus Revisited

disco, agulha, caixas onde ouço os sonhos de coltrane e duke ellington o velho violão em que aprendi os primeiros acordes o novo violão, superior, trincado poemas que li, poemas que escrevi, por todos os lados uma cadeira, uma mesa, um cigarro, um filtro de água o meu corpo cercado por gatos neste exato ponto…
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Juan Luis Panero – Mensagem de Antonio a Cleópatra

Mensagem de Antonio a Cleópatra I Elogiem outros tua adormecida beleza, a suavidade de tua pele em repouso, a medida perfeição de teus membros. Eu não vim para isso, vim somente para te penetrar pela frente e por detrás como um punhal atravessa a água transparente e afunda e se perde no poço sombrio. Mensagem…
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José Asunción Silva – Obra Humana

No interior da floresta intocada em que, uma noite, no início de maio, tocou a velha ramagem folhada da pálida lua o primeiro raio, poucos meses depois a luz de gás da aurora na estação iluminou o curso da locomotiva audaz que por trilhos duríssimos cruzou. E onde fora certa vez um abrigo, porto seguro…
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Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento…
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Paul Valéry – Cemitério Marinho

Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de…