Categoria: Poema
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Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
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Paul Verlaine – Chanson D’Automne (em seis traduções)

Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como…
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Vicente Gaos – Esquecei

Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar…
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Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se…
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Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um…
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Luis Alberto de Cuenca – Mal de ausência

Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta…
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Francisco Brines – Última declaração de amor

Oh Vida, que tudo me deste. Agora já sei que, sendo isto verdade, nada me deste. Mas deixa-me olhar-te ainda com amor, mesmo que eu já não mais deseje abraçar-te. E embora saibas que eu não te abandono podes tu abandonar-me. Trad.: Nelson Santander Última declaración de amor Oh Vida, que todo me lo has…
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José Fernando Guedes – Os pássaros cantam forte

Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
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Giuseppe Ungaretti – Sou uma criatura

Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916 Como esta pedra de S. Michele tão fria tão dura tão seca tão indiferente tão completamente sem ânimo Como esta pedra é meu pranto que não se vê A morte se expia vivendo Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura Valloncello di Cima…
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Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve cobria o chão. O sol flutuava num claro céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado, até onde o olho podia enxergar. Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti e saí para caminhar – decidido a não voltar até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.…