Categoria: Poema
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Mary Oliver – Gansos selvagens

Você não precisa ser bom.Você não precisa atravessar o deserto de joelhos,por cem milhas, em penitência.Você só precisa deixar o suave animal do seu corpoamar o que ele ama.Fale-me sobre o desespero, o seu, e eu lhe direi o meu.Enquanto isso, o mundo continua.Enquanto isso, o sol e os translúcidos seixos da chuvamovem-se por entre…
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Juan Vicente Piqueras – A sala vazia

a Carlos Edmundo de Ory Era um de teus jogos favoritos.O que há em uma sala vazia?, perguntavas. Guardávamos silêncio. O que há em uma sala vazia? Os que não conheciam o jogoàs vezes diziam: nada, e tu dizias: não. Nada é nada, e eu disse o quê. Até que alguém dizia, por exemplo: silêncio.E…
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Raquel Lanseros – Oração

Que não cresça jamais em minhas entranhasessa paz aparente chamada ceticismoFuja eu do amargor, do cinismo, da imparcialidade de ombros encolhidos.Creia eu sempre na vidaCreia eu sempre nas mil infinitas possibilidades.Que me enganem os cantos das sereias,que minha alma guarde sempre um toque de ingenuidade.Que nunca se pareça minha pelecom a de um imóvel e…
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Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia

Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita…
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Juan Vicente Piqueras – Visível e Invisível

(Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou…
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Fernando Assis Pacheco – Tentas, de longe

Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
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Sharon Olds – Uma semana depois

Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme,…
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William Stafford – Uma cópia de arquivo

Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de…
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Dylan Thomas – Poema de outubro

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro…
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Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o…