Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Roger Wolfe – A Última Noite da Terra

O melro de todos os anos voltou a visitar minha casa E, no entanto, permaneço aqui. Sua melodia não muda, já o escrevi antes. Mas o meu trabalho é constatar o óbvio e é isso que o melro faz-me recordar. O tempo passa, as pessoas envelhecem, morrem por sua própria mão ou com ajuda. As…
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Charles Simic – Na Biblioteca

Para Octavio Há um livro chamado “Um Dicionário dos Anjos”. Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos, Eu sei, porque quando o fiz As capas rangeram, as páginas desintegraram-se. Nele descobri Que os anjos já foram tão abundantes Quanto moscas. O céu ao entardecer Costumava ficar repleto deles. Você precisava agitar ambos os braços…
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Jorge Luis Borges – Sobre nós

Amamos o que não conhecemos, o já perdido. O bairro que foi periferia. Os antigos, que já não podem nos decepcionar porque são mito e esplendor. Os seis volumes de Schopenhauer, que não acabaremos de ler. A lembrança, não a leitura, da segunda parte do Quixote. O Oriente que, sem dúvida, não existe para o…
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José Alcaraz – Volta para Casa

Atravessa as ruasabsorto nos ecos das pessoas,distante até de seus pensamentos.Não chove, não abre o seu guarda-chuva,no entanto, como sempre, molham-senão só seus sapatoscomo a vida também, porque às vezesesquece que o mundo o reclama.Caminha como quem não sabe para onde,em cada passo crê estar sozinho,mais distante das outras pessoas,por isso demora a encontrar as…
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Hans Magnus Enzensberger – A Visita

Quando levantei os olhos da página em branco havia um anjo no quarto. Um anjo bastante comum presumivelmente de menor hierarquia. Você não pode imaginar, ele disse, o tanto que você é dispensável. Dos quinze mil tons de azul, ele disse, cada um faz mais diferença Do que tudo que você possa fazer ou deixar…
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Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira…
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Juan Vicente Piqueras – Véspera de Permanecer

Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que…
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Felipe Benítez Reyes – Aniversário

Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que…
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Jaime Gil de Biedma – Lembre-se

Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda…
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Rocío Wittib – Outra vez olhas o mundo…

outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma…