Categoria: Nelson Santander – Traduções
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acabou e não há mais ninguém que possa nos obrigar a forçar sorrisos, ou a inventar incômodas mentiras piedosas. Todos sumiram. Despe-te sem medo. Conheço as velhas rugas de tua carne triste. Acariciei-as. Sei o que teu rosto oculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncio…
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Luis Cernuda – No Meio da Multidão

Em meio à multidão eu o vi passar, com os olhos tão louros quanto seus cabelos. Caminhava abrindo o ar e os corpos; uma mulher se ajoelhou à sua passagem. Senti o sangue desertar de minhas veias, gota a gota. Vazio, andei sem rumo pela cidade. Gente estranha passava ao meu lado sem me ver.…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida dura muito pouco. Não dá tempo de se fazer nada. Não há meios de reunir dias suficientes para aprender algo. Levantas, abraças tua namorada, tomas teu café da manhã, trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema, e nem sequer tens um momento para ler Sêneca e acreditar que tudo neste mundo tem conserto. A…
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Josep M. Rodríguez – Primeira Visita ao Zoológico

Tinha doze anos e a minha mãe me presenteava com um mundo só para mim: – Se a tristeza fosse um animal? – Se a tristeza fosse um animal… seria um besouro. E dizia-lhe então que havia dias em que esse besouro fabricava uma bola muito grande na minha garganta. Os olhos da minha mãe…
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Joaquín Benito de Lucas – Elegia

Quando agora retorno à minha cidade, não posso conter a emoção de saber que não me esperam. Não me espera meu pai, que desceu rio abaixo muito lentamente entre os juncos, sob pontes de névoa. Não me espera meu irmão, que me esperava sempre ao lado de um balcão qualquer, em uma rua qualquer brindando…
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Juan Luis Panero – Epitáfio diante de um Espelho

Dura há de ser a vida para ti, que tuas crenças sacrificastes a uma estranha honradez, para ti, cuja única certeza é tua memória e, por isso, teu sepulcro mais infausto. Dura há de ser a vida, quando os anos passarem e destruírem por fim a ilusória pátria da tua adolescência, quando vires, como hoje,…
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Juan Vicente Piqueras – Nomes Apagados

A mente não é um lápis para tomar notas,É uma borracha. Marko Vesovič Meu pai foi pouco a pouco esquecendo a linguagem.E começou pelos nomes. O queseu cérebro primeiro esqueceu não foram os advérbiosnem os pronomes nem os adjetivos,como seria plausível acreditar,nem os resíduos das preposições,mas os substantivos. A maçã deixou de ser uma maçã,o…
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Luis Alberto de Cuenca – Abre todas as Portas

Abre todas as portas, a que conduz ao ouro, a que leva ao poder, a que esconde o mistério do amor; a que oculta o segredo insondável da felicidade, a que a vida te oferta para sempre no gozo de uma visão sublime. Abre todas as portas, sem te mostrares curioso, nem dar importância às…
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César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem, então, poderia imaginar? O certo é que meu pai está morto como se nunca houvesse estado vivo. Um dia gelaram suas mãos e os pés, e a casa se encheu de parentes, e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito. Ainda lembro. Meu pai está morto ou já não existe, e não é…
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Isabel Bono – O futuro acabará por chegar

desperdiçávamos o tempoorganizando num álbum as fotos do verãopara um dia olhá-las com nostalgia acumulávamos bolinhas de gude pedraslivros cartas poemas adiávamos assim a felicidade, a vida ainda não sei por quêainda não sei para quando Trad.: Nelson Santander El Futuro Acabará por Llegar malgastábamos el tiempo ordenando en un álbum las fotos del verano…