Mês: fevereiro 2019
-
Juan Luis Panero – Palavras e presságios

Voltar a alguns versos de Kaváfis, de Eliot,como quem regressa a uma casa que foi nossa anos atrás.Repetir as sílabas, iluminar os símboloscomo cerradas salas, janelas empoeiradasque ocultam um jardim perdido, árvores da morte.Melancolia do regresso e medo do vazio,rangidos de madeira, agitar de sombras,e, de repente, em um quarto, perdidacomo um velho copo ou…
-
José Fernando Guedes – Adeus meu pai

Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu…
-
Raymond Carver – Um passeio

Saí para caminhar pelos trilhos do trem.Caminhei algum tempo por elese cheguei ao cemitério do povoado,onde um homem descansa entreduas esposas. Emily van der Zee,Mãe e Esposa Amada,está à direita de John van der Zee.Mary, a segunda senhora Van der Zee,também uma Esposa Amada, à sua esquerda.Primeiro Emily se foi, depois Mary.Anos mais tarde, foi…
-
Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que a…
-
Francisco Brines – Aquele verão da minha juventude

E o que restou daquele velho verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão da minha vida?Se pudesse escolher, de tudo o que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de estar vivo. Perdura a experiência, como um quarto…
-
Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
-
Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
-
Manuel António Pina – As vozes

A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?
-
William Soares dos Santos – A força do desejo

A força do desejo se desfaz tão logo se saciam as tensões ferozes do corpo e dos hemisférios e no destino dos braços do tempo os amantes se perdem em mistérios
-
Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se…