Tag: Vida
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Raymond Antrobus – Duas armas no céu para Daniel Harris

Quando Daniel Harris saiu do carro1,o policial estava à espera. Arma erguida. Uso o passado, embora isso seja irrelevantena língua de Daniel, que é a língua de sinais. A língua de sinais não têm futuro nem passado; é uma língua presente.Você nunca está mais presente do que quando uma arma é apontada para você. Que…
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Arthur W. Frank – Um senso de encantamento

A única diferença realentre as pessoasnão é saúde ou doença,mas como cada uma mantémum senso de valorna vida. Quando sinto que não tenho tempopara sair e contemplara luz do solno rio, minha recuperação foi longe demais. Um pouco de medo está tudo bem. Está tudo bemsaberque em um mêseu poderia estar deitadoem uma cama de…
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Charles Simic – Minha contenda com o Infinito

Eu preferia o fugaz,Como a lembrança de um gole de vinhoDe nobre safraNa língua, de olhos fechados… Quando me tocaste no ombro,Ó luz, inexprimível em teu esplendor,Em nada me ajudaste.Apenas prolongaste minha insônia. Estava absorto no espetáculo,Secretamente lamentando o fugidio:Todos os seus beijos e encantosProvisórios, de vida breve. Aqui, com o novo dia surgindo,E um…
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Joan Margarit – Esboço para um Epílogo

Diante de ti sentes um rumor de passosque vem do futuro, essa torredemolida antes de ser construída.Só existe a dúvida moral: ama,não penses na camada de póa que tanto aludes, ostensivamente,quando dizes: “minha vida”.E, do prestígio das negações,desconfia: a vida representanão só a vitória dos anossobre nós. Também nos ensinaquão gloriosa foinossa vitória inicial sobre…
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Sharon Olds — Cemitério de Leningrado, Inverno de 1941

Naquele inverno, os mortos não puderam ser enterrados.O solo estava congelado, os coveiros fracos de fome, a madeira dos caixões era usada como combustível. Por isso, eles foram cobertos com algoe levados em um trenó de criança para o cemitério,no ar abaixo de zero. Eles jaziam no solo,alguns envoltos em um pano escuroamarrado com corda…
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Anna Akhmátova – Cleópatra

Os palácios de AlexandriaCobriram-se de sombras suaves.Púschkin Ela já beijara os lábios de Antônio, sem vida,E chorava, de joelhos, ante Augusto, vencida…E os servos a traíram. Sob a águia de RomaAs trombetas ressoam. E o crepúsculo assoma. E chega o último escravo de sua beleza.Alto e solene, num sussurro, ele pondera:“Vão te levar para ele……
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
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Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulherese dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amara vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.Respeita todos os sagrados e humildes naufrágiosdos seres humanos. Respeita aqueles que se suicidaram. Respeita aqueles que se…
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Dorianne Laux – Eu te desafio

É outono, e estamos nos livrandodos livros, nos preparando para aposentar emudar para um lugar menor, maisgerenciável. Vivendo ao contrário,na nova casa à prova de idade, nadano chão para tropeçar, nenhum obstáculopara os vagarosos mecanismos de nossos corpos,uma mesinha para dois. Nosso mundo estáencolhendo, nossos armários, quase vazios,se foram as saias justas e os sapatos…