Tag: Tempus Fugit
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Ana Martins Marques – [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]
![Ana Martins Marques – [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/04/black-and-wite-beach-low-tide.jpg)
Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente…
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Juan Vicente Piqueras – Taças de sede

Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em…
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Czeslaw Milosz – Sobre anjos

Tudo foi tirado de vocês: túnica branca, asas, até mesmo a existência. Contudo, ainda acredito em vocês, mensageiros. Aqui, onde o mundo está virado do avesso, uma trama maciça bordada com astros e bestas, vocês passeiam, inspecionando as suturas confiáveis. Curta é sua estadia neste lugar: às vezes na hora matinal, se o céu está…
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W. S. Merwin – A estrada

Parece grande demais para que apenas um homemCaminhe sobre ela Como se ela e o dia vazioFossem tudo o que existisse. E um cachorrinhoTrotando no compasso das ondas de calor, pertoDo horizonte, parecendo nunca avançar.O sol e todas as coisasEstão empoçados nos mesmos lugares, e a valaÉ sempre a mesma, repleta de todo tipo deOsso,…
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Mary Oliver – A jornada

Um dia você finalmente soubeo que precisava fazer e começou,embora as vozes à sua voltacontinuassem gritandoseus maus conselhos –embora a casa todacomeçasse a tremere você sentisse o velho apeloem seus tornozelos.“Remende minha vida!”,cada voz clamava.Mas você não parou.Você sabia o que precisava fazer,embora o vento tateassecom seus dedos rijosas próprias fundações,e embora a melancolia delesfosse…
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William Stafford – O sonho de agora

Quando acorda, da noite e dos outros sonhos, para o sonho de agora, você conduz o dia para fora das trevas como a uma chama. Quando a primavera acontece no norte e as flores desabrocham no solo e até adormecem, você alteia o verão com sua respiração para que ele não se perca jamais tão…
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Camille Dungy – Para entrar em nossa própria casa vazia

Ela estava com sete anos quando paramosde usar chaves. Menos uma coisa para se perder.Agora nós usamos uma senha —simples, mas espero que não tão simples queum estranho possa adivinhar. É aqui queeu deveria parar. Eles se veriam obrigadosa ficar irritados — meus amados.Estou revelando todos os nossos segredosnovamente. Esta vulnerabilidadeé a raiz de muita…
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William Stafford – Uma cópia de arquivo

Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de…
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Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato…
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Lisel Mueller – Quando me perguntam

Quando me perguntamcomo comecei a escrever poemas,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe morreu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra cinzaem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas se curvavam para dentro.Nada estava de preto ou…