Tag: Espiritualidade
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Antero de Quental – Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos… Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia… O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos… Oh! Antes tu também…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindo de alguma coisa ou alguém que está à esquerda do fotógrafo. É talvez domingo. É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagem extremamente, absurdamente nítida. E se fosse menor a claridade, ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto…
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Ferreira Gullar – Os Mortos

os mortos vêem o mundo pelos olhos dos vivos eventualmente ouvem, com nossos ouvidos, certas sinfonias algum bater de portas, ventanias Ausentes de corpo e alma misturam o seu ao nosso riso se de fato quando vivos acharam a mesma graça
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de…
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Carlos Drummond de Andrade – José

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não…
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Cecília Meireles – O Jardim

O jardim é verde, encarnado e amarelo.Nas alamedas de cimento,movem-se os arabescos do solque a folhagem recortae o vento abana. A luz revela orvalhos no fundo das flores,nas asas tênues das borboletas,-e ensina a cintilar a mais ignorada areia,perdida nas sombras,submersas nos limos. Ensina a cintilar tambémos insetos mínimos,-alada areia dos ares, que se elevaaté…
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Mia Couto – Falta de Reza

Por insuficiência de reza, por falsidade de crença meu anjo me culpou e vaticinou eterna penitência. Mas não ajoelho nem peço desculpa. Não quero um deus que vigie os vivos e peça contas aos mortos. Um deus amigo que me chame por tu e que espere por mim para um copo de riso e abraços:…
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Jules Laforgue – Spleen

Tudo é tédio. Manhã. Olho pela janela. No alto, risca-se o céu no giz da chuva fria. Em baixo, a rua. Sob a cerração sombria Vultos deslizam na água turva de barrela. Olho sem ver (até meu cérebro regela) Maquinalmente sobre o vidro que embacia Meu dedo faz rabiscos de caligrafia. Bah! Saiamos. Quem sabe,…
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Friedrich Hölderlin – As Parcas

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração,…