Tag: Espiritualidade
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Eucanaã Ferraz – De “Orelhas” (1)

Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa;…
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Mia Couto – O Espelho

Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
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W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
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Zulmira Ribeiro Tavares – Após o inverno

Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água…
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Paulo Henriques Britto – de “Cinco Sonetos Frívolos”

V Súbito? Não. A coisa morre à míngua, um risco vira traço e o traço, ponto. Por exemplo: uma manhã de domingo, a mesa posta pro café, tudo pronto pra não se fazer nada – ou então a noite de uma terça-feira inane, sob o quebranto da televisão – mas isso não importa; que se…
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Jorge Luis Borges – Labirinto

Não haverá uma porta. Já estás dentro, Mas o alcácer abarca o universo E não tem nem anverso nem reverso Nem muro externo nem secreto centro. Não penses que o rigor do teu caminho Que fatalmente se bifurca em outro, Que fatalmente se bifurca em outro, Terá fim. É de ferro o teu destino Como…
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Philip Larkin – Conversar na Cama

Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa…
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Samuel Taylor Coleridge – Kubla Khan

Em Xanadu, um palácio de prazer Comanda-o Kubla Khan como um farol Onde Alph, rio sagrado, vem correr Através de cavernas sem mais ver Ao ser humano até um mar sem sol. Assim, milhas e milhas de bom solo, Cerca de muro e torres polo a polo: E lá jardins luzentes em ribeiros Curvos e…
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Charles Bukowski – Feras Saltando Através do Tempo

Van Gogh escrevendo para seu irmão pedindo tintas Hemingway testando seu rifle Céline fracassando como médico a impossibilidade de ser humano Villon expulso de Paris por ser um ladrão Faulkner bêbado pelas sarjetas da cidade a impossibilidade de ser humano Burroughs assassinando sua mulher com um tiro Mailer apunhalando a sua impossibilidade de ser humano…