Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Orides Fontela – Kant (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei cobrindo-me e o estrelado céu dentro de mim.
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Ana Martins Marques – Penélope (I)

O que o dia tece, a noite esquece. O que o dia traça, a noite esgarça. De dia, tramas, de noite, traças. De dia, sedas, de noite, perdas. De dia, malhas, de noite, falhas.
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Maria Cecilia Brandi – A Dança

Se a festa começou às dez e meia e terminou por volta das quatro teve trezentos e trinta minutos e como foram setenta e dois convidados neste meu aniversário de trinta e oito anos tive menos de cinco minutos para conversar com cada um na verdade ainda menos pois poucos chegaram no início e saíram…
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Cassiano Ricardo – Depois de Tudo

Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.
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Mia Couto – O Espelho

Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.
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Ferreira Gullar – Digo Sim

Poderia dizer que a vida é bela, e muito, e que a revolução caminha com pés de flor nos campos de meu país, com pés de borracha nas grandes cidades brasileiras e que meu coração é um sol de esperança entre pulmões e nuvens Poderia dizer que meu povo é uma festa só na voz…
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Adilia Lopes – Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)

“Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração” Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar…
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Mário Chamie – Cervo, Servo

1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas,…
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Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro,…
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Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito

Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer,…