Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel Bandeira – Renúncia

Chora de manso e no íntimo… Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua…
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Carlos Drummond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor…
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José Saramago – Ouvindo Beethoven

Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para…
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Fernando Moreira Salles – Legado

Não há dor partilhável nem lamento que se ouça É pequeno o destino do teu sonho e do meu Se alguém te viu passar se o caminho te pertence segue e sorri
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Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo CADEIRA I Repetes diariamente os gestos do primeiro homem que se sentou numa tarde quente olhando as savanas II Pouso de gigantescos pássaros cansados FRUTEIRA Quem se lembrou de pôr sobre a mesa essas doces evidências da morte? CRISTALEIRA Guarda e…
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Ana Martins Marques – entre a casa/ e o acaso,

entre a casa e o acaso entre a jura e os jogos entre a volta e as voltas a morada e o mar penélopes e circes entre a ilha e o ir-se
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Gregório de Matos – Nasce o Sol e Não Dura mais que um Dia

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia, Depois da Luz se segue a noite escura, Em tristes sombras morre a formosura, Em contínuas tristezas a alegria. Porém se acaba o Sol, por que nascia? Se formosa a Luz é, por que não dura? Como a beleza assim se transfigura? Como o gosto…
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Paulo Nunes – A um antianjo

Em memória de Júlio Caixeta A mais longa distância que pode haver, esta que agora vai dos teus pés ao chão, não te fez mais leve: foi o mundo e nossas vidas que se soltaram.
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Eucanaã Ferraz – De “Orelhas” (1)

Estão certas todas as canções banais letras convencionais seus corações como são de praxe; estão certos os poemas enfáticos inchados de artifícios à luz óbvia da lua ou de estúpidos crepúsculos; os sonetos mal alinhavados toscos estão certos bem como as confissões íntimas não lapidadas reles nem polidas; ouçamos o que dizem sobre qualquer coisa;…
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Mia Couto – O Espelho

Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me, a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos.