Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Mia Couto – A Luz da Dor

O meu modo de saber é adoecendo. A uns, a ideia surge em luz. A mim, se declara uma pontada no peito. O advento da dor, o deflagrar da súbita febre e eu sei que o meu corpo sabe. Um dia destes me desconhecerei vivo desfalecido de aguda sapiência. Até lá repartirei com um anjo…
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Armando Freitas Filho – Escritor, Escritório

Não transponho Camões, mas me empenho. Não atravesso seu mar manuscrito porque me afogo na incompreensão no enfado, no palavreado castiço na análise sintática dos seus versos onde erro na prova urgente, aflita sem ouvi-los soar na página a pleno de difícil lida, da ilimitada luta na travessia da linha, da estrofe empolgante, empolada, que…
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Armando Freitas Filho – Antiquário

Mil folhas. Mesmo em algumas das mais passadas, um pouco do sabor, um risco de doçura e amargo, é remanescente. Anamnésia construída pelo fato e pela imaginação: vai do anátema ao enaltecimento, expressos em alta voz até ao murmúrio cifrado no coração. O acervo de uma vida se dispersará depois de ela parar: alguma coisa…
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Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil, via-te doce. Talvez fosses mesmo forte, é preciso ser valente pra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo. Que rio obscuro e discreto te puxava para o fundo, sem saber nadar, sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta, um poema, um bilhete de suicida. Como se quisesses dizer que…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém. O sol no alto, fundo, enorme, aberto, Tornou o céu de todo o deus deserto. A luz cai implacável como um castigo. Não há fantasmas nem alvas, E o mar imenso solitário e antigo, Parece bater palmas.
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Zulmira Ribeiro Tavares – Após o inverno

Desarrumação em setembro. O vento batendo as portas e a floração rebentando nas cercas vivas. O céu por vezes de terracota bem acima das cabeças, mas também finas agulhas de gelo imiscuindo-se pelas frinchas, noite alta. Era em São Paulo. Então se entende: o mato bravo torcido pela chuva, o prédio em demolição pingando água…
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Paulo Henriques Britto – Envoi

O tempo, que a tudo distorce, às vezes alisa, conserta, e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morse de instantes sem rumo e roteiro então dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquiva a gente retoca e remenda até ser coisa que se entenda, mas algo que na…
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Paulo Henriques Britto – Três Peças Dispépticas

I É aqui mesmo, sim. Você era esperado. E por falar nisso, chegou atrasado. Não peça desculpas: não adianta nada. O atraso será contabilizado. Não há a menor dúvida; é este o endereço. Mas fique sabendo: tudo aqui tem preço. Não esteja à vontade. A casa não é sua. E se não gostar, por ali…
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Paulo Henriques Britto – de “Biographia Literária”

IV Acrescentar ao mundo um morto a mais é só o que a vida garante. O resto é risco, é vai da valsa. Tanto faz improvisar ou decorar o texto, ser pedra ou imitar os animais, correr atrás de lucro ou prejuízo. Dá no que der. E, seja lá o que for, terá sido o…
