Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Angela Lago – Sem Título

a pedra estará aqui daqui a vinte anos quem sabe mais polida embora não se veja ou mais recortada pelo vento a árvore terá crescido com sua sombra nem o céu permanece azul ou cinza rubro dorado negro no entanto tem essa criança que busca colo – que seja um cão que vem ao teu…
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Ana Martins Marques – Sem Título

Porque sua camiseta secou ao sol ela tem a cor do sol porque seus cabelos secaram ao vento seus pensamentos têm a velocidade do vento porque você disse “noite” sua boca terá o gosto do mar noturno porque você não conheceu meu avô você me amará menos porque não te conheci quando criança eu te…
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Ivan Junqueira – No Leito Fundo

No leito fundo em que descansas, em meio às larvas e aos livores, longe do mundo e dos terrores que te infundia o aço das lanças; longe dos reis e dos senhores que te esqueceram nas andanças, longe das taças e das danças, e dos feéricos rumores; longe das cálidas crianças que ateavam fogo aos…
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Ivan Junqueira – de “Três Meditações na Corda Lírica”

Only through time time is conquered. T. S. Eliot, Four Quartets, Burnt Norton, 92 I Deixa tombar teu corpo sobre a terra e escuta a voz escura das raízes, do limo primitivo, da limalha fina do que…
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Ivan Junqueira – Lição

À beira do claustro o monge se inclina e na pedra aprende o que a pedra ensina: que a vida é nada com a morte por cima, que o tempo apenas este fim lhe adia e que o ser carece de não ser ainda, pois à luz se esquiva do que o purifica: a doce…
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Ivan Junqueira – Antes que o Sol se Ponha

Antes que o sol se ponha e seja tarde, e o azul crepuscular me deite a garra, e eu, nu, retorne à terra sem fanfarra ou mortalha que o corpo me resguarde; antes que murche a pétala na jarra, e eu cale, para sempre, sem alarde, e tudo o que me coube, por covarde, não…
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José Jorge Letria – Meditação sobre os Poderes

Rubricavam os decretos, as folhas tristes sobre a mesa dos seus poderes efémeros. Queriam ser reis, czares, tantas coisas, e rodeavam-se de pequenos corvos, palradores e reverentes, dos que repetem: és grande, ninguém te iguala, ninguém. Repartiam entre si os tesouros e as dádivas, murmurando forjadas confidências, não amando ninguém, nada respeitando. Encantavam-se com o…
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Haroldo de Campos – Ex/plicação

não há um sentido único num poema quando alguém começa a ex- plicá-lo e chega ao fim en- tão só fica o ex do ponto de partida beco (tente outra vez) sem saída
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Cecilia Meireles – Cântico VI

Tu tens um medo: Acabar. Não vês que acabas todo o dia. Que morres no amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que te renovas todo o dia. No amor. Na tristeza. Na dúvida. No desejo. Que és sempre outro. Que és sempre o mesmo. Que morrerás por idades imensas. Até não teres medo de…
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Ferreira Gullar – Traduzir-se

Uma parte de mim é todo mundo; outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera; outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta; outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente; outra parte se sabe…