Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Miguel Torga – Agenda

Folheio a vidaNum calendário velho.Dias riscados, como contas pagas.Domingos de repouso,Segundas de trabalhoSábados de cansaço,Sem nenhum sentido.No abismo do nada,O nada, apenas.Quem sofreu nestas páginas vazias,Tão frias,Tão serenas? REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 04/04/2016
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Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas…
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Jorge de Lima – A Divisão de Cristo

Dividamos o mundo em duas partes iguais:uma para portugueses, outra para espanhóis.Vêm quinhentos mil escravos no bojo das naus:a metade morreu na viagem do oceano. Dividamos o mundo entre as pátrias.Vêm quinhentos mil escravos no bojo das guerras:a metade morreu nos campos de batalha. Dividamos o mundo entra as máquinas.Vêm quinhentos mil escravos no bojo…
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Donizete Galvão – Peso

Peso Lixe a pedra.Lime a pedra.Rale a pedra.Role a pedra.Cada noitelá estará ela:pedra.Dura,áspera,intacta,pesandono peito.
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Manuel Bandeira – A morte absoluta

“A Morte Absoluta”, um poema de Manuel Bandeira em que o eu lírico aspira à dissolução sem vestígios, à erradicação total do ser — não como fuga, mas como êxtase do esquecimento, apagamento do eco e transcendência do próprio nome.
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Ana Martins Marques – Há estes dias em que pressentimos na casa…

Há estes dias em que pressentimos na casaa ruína da casae no corpoa morte do corpoe no amoro fim do amorestes diasem que tomar o ônibus é no entanto perdê-loe chegar a tempo é já chegar demasiado tardenão são coisas que se expliquemapenas são dias em que de repente sabemoso que sempre soubemos e todos…
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Ferreira Gullar – Filhos

A meu filho Marcos Daqui escuteiquando eleschegaram rindoe correndoentraramna salae logoinvadiram tambémo escritório(onde eu trabalhava)num alvoroçoe rindo e correndose foramcom sua alegriase foramSó entãome pergunteipor quenão lhes deramaioratençãose há tantose tantosanosnão os via criançasjá queagoraestão os trêscom maisde trinta anos. REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016
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Luís Filipe Parrado – Depois do amor

“Depois do Amor”, um poema de Luís Filipe Parrado em que a memória do outro se entranha na pele como um aroma que nem a água consegue apagar.
