Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se…
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Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um…
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José Fernando Guedes – Os pássaros cantam forte

Os pássaros cantam forte, um poema de José Fernando Guedes
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Paulo Henriques Britto – Da irresolução

Por não se estar preparadoperde-se a vida inteira.A preparação, porém,pra ser completa e certeira, exigiria no mínimouma existência e meia.Compreende-se, portanto,aquele que titubeia ao se ver face a facecom tamanho compromissoe termina decidindoviver mesmo de improviso.
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Manuel António Pina – Café Orfeu

Nunca tinha caído de tamanha altura em mim antes de ter subido às alturas do teu sorriso. Regressava do teu sorriso como de uma súbita ausência ou como se tivesse lá ficado e outro é que tivesse regressado. Fora do teu sorriso a minha vida parecia a vida de outra pessoa que fora de mim…
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Fernando Pinto do Amaral – Por causa de uma ave

para a minha mãe Cada vez gosto menos de saborearo travo tão pastoso da morte, o murmúriosecreto dos seus olhos invisíveisdentro de mim. Porém, há pouco tempo,num fim de tarde deste fim de julho,passou-me um episódio que rompeude repente na alma todas as comportasque fingem proteger os ópios tranquilosa que chamamos vida. Aconteceudepois de ter…
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Rui Caeiro – Sabem que mais?

Sou um homem dado ao álcool e a eternas dúvidas e que na rua ou lá onde seja a todo o momento pode tropeçar ou morrer: voar é que é muito mais improvável Sou um homem de áridas certezas e uma esperança a essa arrasto-a pela mão pelos cabelos pelas orelhas paro escuto e olho…
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Diogo Vaz Pinto – Guilty pleasures

No princípio correram ainda uns dias sem que o desencanto desse pela nossa falta. Seja como for, não fomos muito longe. Íamos mais era ao cinema mas aí eu já olhava menos para o lado, apaixonava-me pelas tipas que enchiam o ecrã, para depois, com o sexo aceso e louco por se molhar entre quaisquer…
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Rui Diniz – O desaguar dos crepúsculos no Ebro

Eu estava presente quando o corpo do hernandez deu à costa. Era um corpo magro e extraordinariamente roxo, evocava os últimos dias da sua vida, quando se demorava o menos possível nos cafés de barcelona, perseguido até por si próprio. De facto a loucura procurava-o lentamente. Durante a noite, em tempo de lua cheia, a…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundo Que logo se desfaz e se reconstrói Como uma linguagem de gestos que o universo Elabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundo Há suficiente espaço para se fazer o bem ou o mal Porque é assim mesmo que acontece: o mal ou o…