Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
-
Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundo fazem sentido. Senão não teria sentido elas serem. Ou estarem. Tudo mais depende desse princípio. Os dias vêm antes das noites, não depois. Nunca faz parte de sempre, assim como zero é apenas um número entre outros números. Toda forma é perfeita: não só a esfera, que é…
-
Helena Zelic – Dimensões

“dimensões”, um poema de Helena Zelic que desloca a história e a experiência humana para a vertigem de uma hipótese radical: e se tudo não passar do sonho de outro ser, à margem de um mundo desconhecido?
-
Sophia de Mello Breyner Andresen – 25 de abril

Esta é a madrugada que eu esperava O dia inicial inteiro e limpo Onde emergimos da noite e do silêncio E livres habitamos a substância do tempo
-
Eugénio de Andrade – O Amigo

Não voltará – o que dele me ficou é como no inverno entre cortinas de chuva um tímido fio de sol: ilumina mas não aquece as mãos.
-
Manuel António Pina – Numa Estação de Metrô

A minha juventude passou e eu não estava lá. Pensava em outra coisa, olhava noutra direção. Os melhores anos da minha vida perdidos por distração! Rosalinda, a das róseas coxas, onde está? Belinda, Brunilda, Cremilda, quem serão? Provavelmente professoras de Alemão em colégios fora do tempo e do espa- ço! Hoje, antigamente, ele tê-las-ia amado…
-
Bruna Beber – Romance em doze linhas

quanto falta pra gente se ver hoje quanto falta pra gente se ver logo quanto falta pra gente se ver todo dia quanto falta pra gente se ver pra sempre quanto falta pra gente se ver dia sim dia não quanto falta pra gente se ver às vezes quanto falta pra gente se ver cada…
-
Sérgio Jockyman – Os votos

Pois desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado. E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo não guarde mágoa. Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar. Desejo também que tenha amigos e que mesmo maus e inconsequentes sejam corajosos e…
-
José Fernando Guedes – Adeus meu pai

Continuo a vislumbrar o olhar que meu pai Me lançou, há tantos anos, lá da janela De onde morava. Eu realmente não vi com precisão Esse derradeiro olhar para mim. Era mais como um grito para dentro Que ele lançava. Meu nome talvez. Me acenou e foi o último acenar seu. Nessa despedida que eu…
-
Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
-
Manuel António Pina – As vozes

A infância vem pé ante pé sobe as escadas e bate à porta – Quem é? – É a mãe morta – São coisas passadas – Não é ninguém Tantas vozes fora de nós! E se somos nós quem está lá fora e bate à porta? E se nos fomos embora? E se ficamos sós?