Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Vasco Gato – Fera Oculta

com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes…
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Manuel António Pina – Sexta-feira Santa

A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena…
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Manuel Halpern – Domingo de manhã

Quantos homens se apaixonam por ti ao sábado à tarde enquanto passeiam os filhos no parque e se distraem do balanço do baloiço na adivinhação das partes do corpo que trazes tapadas Mal sabem que a tua solidão não se preenche com a desventura erótica de um corpo que te cubra sem consolo Não há…
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Miguel Martins – Sou eu

são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me…
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Eugénio de Andrade – Mulheres de preto

Há muito que são velhas, vestidas de preto até a alma. Contra o muro defendem-se do sol de pedra; ao lume furtam-se ao frio do mundo. Ainda têm nome? Ninguém pergunta, ninguém responde. A língua, pedra também.
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Manuel António Pina – Corpo presente

Toda a casa suspendera a respiração incapaz de conter tamanha desproporção, e eu próprio desaparecera algures na sala, entre a tua vida e a tua morte. Atenderam o telefone falando baixo, temendo que regressasse cada coisa do teu lugar sem estar prontos ainda para a tua solidão. Faltava muito para podermos perceber, muitos passos para…
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Paulo Henriques Britto – Plaudite, amici

Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida…
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Nuno Júdice – É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a…
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Fernando Assis Pacheco – Respiração Assistida

Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a…
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Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.