Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Gonçalo M. Tavares – Palavras, Atos

A ironia ensina a sabotar uma frase Como se faz a um motor de automóvel: Se retirares uma peça a máquina não anda, se mexeres No verbo ou numa letra do substantivo A frase trágica torna-se divertida, E a divertida, trágica. Este quase instinto de rasteirar as frases protegeu-me, Desde novo, daquilo que ainda hoje…
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Manuel de Freitas – Nada de nada

para o José Carlos Soares Um dia, logo de manhã, entraremos num cemitério e perguntarás a Antonia Pozzi se estar morto é mais ou menos triste do que estes dias arduamente sepultados. Receando que saibas a resposta, beberei com Lowry a primeira ou a última tequila, na certeza de que ambos os adjetivos estarão certos…
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José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga, rio de água suficiente, onde apenas se mergulha até à cintura, a pequena horta de Virgílio, o amor robustecido por nenhuma esperança e tantos livros para ler — que desculpa vou agora dar para não ser feliz?
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

o António Ramos Rosa estava deitado na cama contra a parede e deu meia volta sobre si mesmo e ficou de cara voltada contra a parede e fechou os olhos e fechou a boca e ficou todo fechado e então morreu todo fundo e completo de uma só vez e apenas ele no tempo e…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

fico tão feliz quando vejo como os golfinhos são inteligentes tão subis no súbito entendimento das intenções segundas que temos em relação a eles se lhes dessem a ler bons poemas maior proveito teriam aqueles que os escrevem do que tem com A ou B eu cá por mim estou certo de que nenhum golfinho…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

escrever poemas não é boa maneira de atordoar os tempos do verbo, não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio, nem perder algures uma perna e lembrar-me depois de perder ainda a outra: ninguém ganha assim uma barra de ouro, ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro, ninguém transforma assim…
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Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas…
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Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que…
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Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
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Fernando Assis Pacheco – R., 1992

Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence…