Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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David Teles Pereira – Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)

Ao meu avô Nunca mais me irás interromper ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez, mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa o peito sufoca-me a voz. As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios e o pior de todos é chorar-te por não te poder dizer, seguindo…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
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Helder Moura Pereira – “Eras mesmo a fonte de tudo…”

Eras mesmo a fonte de tudo, pelo menos naquele dia a que chamamos perfeito. Os dias tinham-se entranhado nos dias, a tal ponto que a vida era só dias, dias a seguir uns aos outros. Apenas dias. De olhos vendados e sem bater numa única parede, pegados a isto, ao cheiro reconhecido só quando um…
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Andreia C. Faria – “Espero o dia em que possa…”

Espero o dia em que possa deixar crescer as unhas as meias por cerzir a boca sem propósito de beijar. O dia que misture à noite uma respiração de espelhos, um registro acidental, mortificado, ou o livro que se leu na tarde até perder a luz. Que a natureza avance em mim sem esperança de…
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Ferreira Gullar – Verão

Este fevereiro azul como a chama da paixão nascido com a morte certa com prevista duração deflagra suas manhãs sobre as montanhas e o mar com o desatino de tudo que está para se acabar. A carne de fevereiro tem o sabor suicida de coisa que está vivendo vivendo mas já perdida. Mas como tudo…
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Adelaide Ivánova – um poema pra italo

a vida tem estado mesmo dura vou poupar-te da ladainha sobre temer AfD #voltadilma e o caralho não ganhamos dos bancos em caruaru ou karlsruhe meu dinheiro e endereço: bloqueados a moça do balcão cagou pra mim ser cidadão não significa merda nenhuma mas é privilégio nessa europa genocida (e quando é que ela não…
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Eugénio de Andrade – Ver claro

Toda poesia é luminosa, até A mais obscura. O leitor é que tem às vezes, Em lugar de sol, nevoeiro dentro de si. E o nevoeiro nunca deixa ver o claro. Se regressar Outra vez e outra vez E outra vez A essas sílabas acesas Ficará cego de tanta claridade Abençoado seja se lá chegar.
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Manuel António Pina – Café do molhe
Perguntavas-me (ou talvez não tenhas sido tu, mas só a ti naquele tempo eu ouvia) por que a poesia, e não outra coisa qualquer: a filosofia, o futebol, alguma mulher? Eu não sabia que a resposta estava numa certa estrofe de um certo poema de Frei Luis de Léon que Poe (acho que era Poe)…
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Daniel Faria – Infância

e jogava o pião com Deus enquanto minha mãe estendia roupa e o meu pai mendigava o pão e minha alegria nesse tempo era muito próxima da dos meninos e de Deus que ganhava sempre e não sei quem perdi primeiro: o pião ou Deus apenas sei que Deus continua a jogar com outros meninos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Não te esqueças nunca

Não te esqueças nunca de Thasos nem de Egina O pinhal a coluna a veemência divina O templo o teatro o rolar de uma pinha O ar cheirava a mel e a pedra a resina Na estátua morava tua nudez marinha Sob o sol azul e a veemência divina Não esqueças nunca Treblinka e Hiroshima…