Categoria: Poema
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Luís de Góngora – Estamos desperdiçando a páscoa, moças

Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Moçoilas do meu distrito, Louquinhas e confiantes, Que não vos engane o tempo, a idade e a confiança. Não deixeis cortejar-vos o frescor da juventude, porque de flores caducas tece o tempo suas grinaldas. Estamos desperdiçando a páscoa, moças, Estamos desperdiçando a páscoa! Voam os velozes…
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José Régio – Cântico Negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: “vem por aqui!” Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali… A minha glória é esta:…
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Javier Salvago – No verso de uma velha fotografia

Os Beatles ainda não tinham surgido, nem haviam abatido Che Guevara. Nat King Cole cantava ansiedad de tenerte en mis brazos ou solamente una vez se entrega el alma. e no cinema talvez exibissem Sete noivas para sete irmãos. O comandante Armstrong ainda não havia deixado sua profana pegada no rosto esburacado da lua. Os…
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Ferreira Gullar – Aqui e agora

1 Que faz a defunta manhã na manhã nova? Que sois vós hoje alegria de outrora riso extinta palavra de afeto? que sois vós senão fantasmas senão miasmas a infectar de morte o que está vivo? 2 Se há sol no pátio e um carro penetra nele e estaciona e o chofer desce bate a…
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Eugénio de Andrade – O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem…
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Joan Margarit – No álbum

És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com…
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Manuel António Pina – As Coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência…
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Páladas – da Antologia Palatina, 10.45

Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a…
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Maria Mercedes Carranza – Kavafiana

O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a…
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Amalia Bautista – A pesagem do coração

Leia “A pesagem do coração”, de Amalia Bautista, um poema delicado e profundo sobre ética, compaixão e o legado que deixamos após a morte.