Categoria: Poema
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Brigit Pegeen Kelly – A partida

Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o…
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João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a…
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Ellen Bass – Pelo tempo que quiser

No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado…
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Lewis Carroll – Jaguadarte

Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo.…
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Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…
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Ada Limón – Instruções para não desistir

Mais do que os funis fúcsia rompendoda macieira, mais do que a exibição quaseobscena dos galhos da cerejeira do vizinho enfiandosuas flores cor de algodão doce no céu ardósiadas chuvas de primavera, é o verdejar das árvoresque realmente me comove. Quando todo o embate de brancoe caramelo e os berloques e bugigangas do mundo deixam,de…
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Carlos Drummond de Andrade – A Mesa

E não gostavas de festa. . .Ó velho, que festa grandehoje te faria a gente.E teus filhos que não bebeme o que gosta de beber,em torno da mesa larga,largavam as tristes dietas,esqueciam seus fricotes,e tudo era farra honestaacabando em confidência.Ai, velho, ouvirias coisasde arrepiar teus noventa.E daí, não te assustávamos,porque, com riso na boca,e a…
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Jo Shapcott – Observadora de estrelas

Se eu não estou olhando para você, me perdoe; se pareçoestar esqudrinhando o céu,cabeça jogada para trás, curiosa,extática, reservada, andandoaleatoriamente no chãoà sua frente, meu público,me perdoe, e esqueça o que estáacontecendo em minhas células.É em você que estou pensandoe, voz lançada para o alto,é com você que estou falando, você. Estou tentando manter tudo…
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Robinson Jeffers – Cremação

Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou, Quando eu penso em cremação. Apodrecer na terra É um fim abominável, mas arder em chamas — além disso, estou habituada, Eu ardi com amor ou fúria tanto em minha vida, Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo. Nós fomos felizes com…
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Cynthia Huntington – O arrebatamento

Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa. Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.A rua estava tranquila, pra variar, e todas as…