Categoria: Poema
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Carlos Drummond de Andrade – Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra…
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Kelli Russell Agodon – Capelas imaginárias

Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo…
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Alan Jenkins – Pertences

Leia Pertences, de Alan Jenkins, um poema comovente sobre luto, memória familiar e os vestígios materiais deixados pelos mortos.
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Stanley Plumly – Rinoceronte branco

O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar…
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Carlos Drummond de Andrade – Inocentes do Leblon

Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
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Robinson Jeffers – Regresso

Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento…
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com…
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Abdellatif Laâbi – Por que esta folha?

Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta…
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Jorge Valdés Días-Vélez – Pro nobis

Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na…
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Carlos Drummond de Andrade – José

E agora, José?A festa acabou,a luz apagou,o povo sumiu,a noite esfriou,e agora, José?e agora, você?você que é sem nome,que zomba dos outros,você que faz versos,que ama, protesta?e agora, José? Está sem mulher,está sem discurso,está sem carinho,já não pode beber,já não pode fumar,cuspir já não pode,a noite esfriou,o dia não veio,o bonde não veio,o riso não…