Categoria: Poema
-
Tishani Doshi – Poema de Amor

No fim, perderemos um ao outropara alguma coisa. Eu até preferiria algograndioso — morte ou desastre.Mas pode não ser assim.Pode ser que você saiacerta manhã para comprar cigarros,depois de fazermos amor,e nunca mais volte,ou que eu me apaixone por outro homem.Pode ser um lento deslizamento para a indiferença.Seja como for, teremos de aprendera suportar o…
-
Antonia Pozzi – Novembro

E depois – quando eu partirrestará alguma coisade mimno meu mundo –restará um fino rasto de silênciono meio das vozes –um ténue sopro de brancono coração do azul – E numa noite de Novembrouma menina frágilà esquina de uma ruavenderá braçadas de crisântemose lá estarão as estrelasgélidas verdes distantes –Alguém choraráem algum lugar – em…
-
Leah Silvieus – Espécies invasoras

Algo terrível aconteceu hoje, eu digoe meu marido corre até mim procurando por sinais de ferimentos. Não quero contar-lhe o resto:de como encontrei uma rã-arborícola na canaleta do vidro da portado nosso carro, olhando para cima com o que eu então imagineiser um olhar de esperança, como a persuadi a entrar em um saco de…
-
Renata Correia Botelho – o vento a rondar os dragoeiros

O Vento a Rondar os Dragoeiros, um poema de Renata Correia Botelho
-
Richard Howard – Princípios elementares aos setenta e dois

Quando consideramos as estrelas(o que mais podemos fazer com elas?) e atéreconhecemos entre elas figuras paternas siderais (foi nossoolhar que as dispôs assim),elas sempre brilharão mais que nós, pois mudamos. Quando contemplamos a água(que não se deixa reter, pois não cessa de se transformarem si mesma), é assim que gostaríamos de nos mover — mas…
-
Felipe Benítez Reyes – Uma Forma de Eternidade

Então o medo era isto?Não os ameaçadoresfantasmas do pensamento e da consciência.Não os longos corredores de hospitaiscom lâmpadas fluorescentes dia e noite.Nem sequer o tremor de irrealidadeque permanece na alma se te recordas. O medo, aparentemente, é calmo: Chega quando fechas a janelae compreendes que tudo quanto vêsé o mesmo que ontem, e seráigual amanhã…
-
Cheryl Pearson – Contando estrelas

O cheiro de gelo nos pinheiros. Frio e verde,como pulmões cheios de hortelã. Suas omoplatas como asas de anjofendendo a grama. Moisés dividiu as águas desse jeito.Não foi tão milagroso quanto isto. Nós. Sua pele, a brancura dela brilhandoatravés do algodão. Você faz um círculo com o polegar e o indicador,uma lente telescópica. E diz:…
-
Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonia ‘Leningrado’

Lembras-te? Joana1 havia morrido.Íamos para o norte, tu e eu, de carro,para o apartamento junto ao mar,e ouvíamos esta sinfonia.Iniciamos a viagem em uma manhãluminosa e, dentro da música,o dia era de muros cobertos pelo gelo,sombras com sacos meio cheiose, no lago, trenós com cadáveres.Como uma pista de aeroporto ao sol,fugia a estrada, e por…
-
Ada Limón – O real motivo

“O Real Motivo”, um poema de Ada Limon que parte de uma conversa aparentemente trivial sobre tatuagens para revelar uma história profunda de perda, sobrevivência e amor materno.
-
Carlos Drummond de Andrade – A um varão que acaba de nascer

Chegas, e um mundo vai-secomo animal ferido,arqueja. Nem apontaum forma sensível,pois já sabemos todosque custa a modelar-seuma raiz, um broto.E contudo vens tarde.Todos vêm tarde. A terraanda morrendo sempre,e a vida, se persiste,passa descompassada,e nosso andar é lento,curto nosso respiro,e logo repousamose renascemos logo.(Renascemos? talvez)Crepita uma fogueiraque não aquece. Longe.Todos vêm cedo, todoschegam fora do…