Categoria: Poema
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Joan Margarit – A partida
Definitivamente, este é o meu Outono,um tempo de alianças impossíveis,a era rubra de todos os perigospara homens maduros e mulheres solitárias.A era do adultério e da desmemóriasem nenhuma esperança, a era do gelo,a partida final contra mim mesmo.Permaneço à mesa, sem esperar pela sorte,já não há chances neste jogo.É o tempo de jogar paciênciacom as…
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Meghan O’Rourke – Erro não forçado

Antes: aqueles longos e úmidos verões em Vermont.Sem dinheiro, nada para fazer além de ler livros, nadarno rio com homens de shorts jeans,e depois jogar bingo fora da igreja, comemorando quando ganhávamos.Nada parecia real e tudo aquilo era tão vivo.Levei todo esse tempo para aprender o quanto eu estava errada —além da linha do horizonte…
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Jorge de Sena – Nasceu-te um filho

Nasceu-te um filho. Não conhecerás,jamais, a extrema solidão da vida.Se a não chegaste a conhecer, se a vidata não mostrou – já não conhecerás a dor terrível de a saber escondidaaté no puro amor. E esquecerás,se alguma vez adivinhaste a paztraiçoeira de estar só, a pressentida, leve e distante imagem que iluminauma paisagem mais distante…
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David Mourão-Ferreira – Praia do Paraíso

Era a primeiraVez que nus os nossos corposApesar da penumbra à vontade se olhavamSurpresos de saber que tinham tantos olhosQue podiam ser luz de tantos candelabrosEra a primeira vez cerrados os estoresSó o rumor do mar permanecera em casaE sabias a sal, e cheiravas a limosQue tivesses ouvido o canto das cigarrasHavia mais que céu…
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Cheryl Pearson – Encantamento de proteção para um amado

Você sai com o carro em uma noite chuvosa,e minha mente corre solta. Bêbados. Pista escorregadia.Um corpo sob um lençol à beira da estrada. Eu te digo:Tenha cuidado. O que quero dizer é: Eu te amo,não vá embora. Eu quero você quente e descontente.O rejunte entre os ladrilhos do banheiro está lascando;a umidade na cozinha…
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Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mime desperto na noite ao menor somcom medo do que minha vida e a dos meus filhos possam ser,eu saio e me deito onde o pato selvagemrepousa em sua beleza sobre as águas, e a garça se alimenta.Eu penetro na paz das coisas selvagensque não sobrecarregam suas vidas…
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Philip Schultz – Fracasso

Para pagar o funeral do meu pai,pedi dinheiro emprestado a pessoasa quem ele já devia dinheiro.Um deles o chamou de zé-ninguém.Não, eu disse, ele era um fracassado.Ninguém se lembra o nomede um zé-ninguém, é por isso queeles são chamados de zés-ninguém.Os fracassados são memoráveis.O rabino que leu um discurso convencionalsobre um homem que não pertenciaou…
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Tamara Kamenszain – O Eco de Minha Mãe

“O Eco de Minha Mãe”, um poema de Tamara Kamenszain que aborda a experiência de cuidar da mãe em meio à perda da linguagem e da memória, refletindo sobre desamparo, inversão de papéis e o escândalo íntimo da gramática diante do esquecimento.
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Lucille Clifton – Dois poemas

adão pensando elasubtraída do meu ossoserá de admirarque eu anseie cavar um túnel de voltapara dentro desesperadopor reunir a costela e o barroe ser inteiro outra vez há em mim uma necessidadelutando para rugir pela minhaboca até se fazer nomeesta criação é tão ferozque eu preferiria ter nascido eva pensando aqui é um território selvagemirmãos…
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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…