Categoria: Poema
-
Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas…
-
Jane Mead – Bach, inverno

Bach devia saber – comoalgo esvoaça quando você se virapara encarar o rosto visto de relanceem um espelho, em um hall, ao entardecer – e como o aroma das maçãs em uma tigelapode parar o coração por um instante,entre a pia e o fogãono auge do inverno quando estrelas de gelo se espalham pelas vidraçase…
-
Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus armáriose percorremos mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,revelam com mais nitidez a tua ausência.Os móveis estão agora mais sombrios.Pela escada desce a balaustrada acolhedoraque guarda ainda a lembrança de tua pequena mão,e os…
-
Caroline Bird – Checkout

Eu penso ‘então, isso é a morte’, e me pergunto por queainda consigo enxergar através dos meus olhos. Um anjose aproxima com um formulário de avaliação perguntandocomo eu classificaria minha vida (muito boa, boa,mediana, ruim, muito ruim) e eu penso em marcar‘mediana’ seguido de um desabafo, mas então me lembrode seu rosto como um baú…
-
Manuel António Pina – Amor como em Casa

“Amor como em Casa”, um poema de Manuel António Pina que retrata o amor como um regresso íntimo e familiar, onde a saudade, os gestos cotidianos e a ternura constroem a sensação de entrar no sentimento como quem volta para casa.
-
Harryette Mullen – Não somos responsáveis

Não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou sequestrados.Não podemos garantir a sua segurança se desobedecer às nossas instruções.Não apoiamos as causas de pessoas pedindo esmolas.Reservamo-nos o direito de recusar serviços a qualquer um. Sua passagem não garante que honraremos suas reservas.Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua bagagem de mão.Antes de decolar, por…
-
Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Vendi o relógio do meu avô,seu ouro rosado e padrões pontilhados,para ser derretido.Mecanismo irrecuperável.Tampa ausente.Corrente — deve ter havido uma —ausente.Seus números pintadoscom um único e habilidoso pincel.Dei corda à coroaantes de entregá-lo sobre o balcão.O homem gentil recebeuo que lhe trouxe como se fosse à Stasi*.Ele pesou o mel do tempo. * N. do…
-
Linda Pastan – O almanaque das coisas derradeiras

Do almanaque das coisas derradeiraseu escolho o lírio-da-aranha-vermelhapela graça de sua efêmerafloração, embora eu mesmatema a brevidade, mas escolho O Cântico dos Cânticospor ter a polpadaquelas romãssobrevivido atoda geada do dogma. Escolho janeiro, com suas friaslições de paciência e desespero – eagosto, muito ensolarado para lições.Escolho um gole de vinho tintopara fazer meu coração disparar,…
-
Joan Margarit – Despedida

Retirei tapetes e cortinas,todas as mesas onde há temposnão como nem escrevo.Removi os quadros e pintei as paredespara apagar os vestígios dos anos.Guardo alguns poucos livros. Sei bem quais.Destruícartas de amor que não me amavam mais.Silenciosos agora, os amoressão icebergs errantes do pensar.A casa, sem recantos para o medo,deixa meus olhos mais desnudos.Nada, nem a…
-
Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários

Este poema foi inspirado em “People talk and talk more”1, de Eugenio Montale, e no ciclo de vida do nosso Universo. Há uma teoria segundo a qual a fase final do Universo é a denominada Era dos Buracos Negros, na qual esses fenômenos astronômicos deslizam lentamente pelo vácuo frio até não sobrar nada. Essa imagem…